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Ter carro no Brasil é… burrice!

Texto e imagens: Renato Pereira

Para começar, é preciso que fique claro e registrado que não, não tenho nada contra qualquer montadora ou importadora no geral; talvez numa ou outra coisinha que elas fazem, mas nada que afete a cotação do Dólar, do Yuan ou do Drex. Qualquer modelo aqui citado, por qualquer motivo, será meramente para melhor entendimento do leitor. O que se verá aqui são alguns dos motivos (podem ter mais, mas só esses resolvem…) que levam a entender que, ter um carro, no Brasil, é burrice. Vale destacar, também, que na palavra “carro” empregada nesta matéria, estão englobadas as categorias Passeio, SUV e Pick-Up, bem ao gosto dos  departamentos de marketing que, contrariando a engenharia e suas normativas, alocam os modelos onde bem querem – cada vez mais fora da proposta dos projetos –, o consumidor já é enganado desde a origem e aí não é burrice, é má-fé mesmo. Também não tenho pessoalmente nada contra concessionárias, oficinas, sites de classificados, lojistas, braços-duros etc. Ah, em tempo: esta não é uma matéria curtinha. Não tem como ser curtinha e elucidativa ao mesmo tempo. Se você tem preguiça de ler, procure postagens dos influencers, que como não entendem nada de carros, falam as besteiras que querem ou repetem o que lêem nos releases oficiais, em espaços bem reduzidos, a troco de viagens e comes-e-bebes gratuitos, como gostam – de novo – os departamentos de marketing. Você duvida? Pergunte a algum deles porquê o pneu é preto, o que é relação estequiométrica, o que é ergonomia ou como se calcula a potência específica de um motor…

Pois é, colocando na ponta do lápis, ter um carro no Brasil é uma grande burrice. Não faz a menor diferença se é zero quilômetro, à combustão ou eletrificado, semi-novo (eufemismo ridículo para usado…) ou usado (caracterizado como “carro velho”), em alguns casos “resto de rico” ou “favela venceu”. É fazendo contas que se conclui que a máxima brazuca de carro ser símbolo de status é uma estupidez financeira sem igual. Se para alguns é necessidade mesmo e aí não tem jeito, para outros é a independência popular que, de 3 anos para cá, é indesejada e vem sendo tolhida e boicotada numa escalada nunca vista em todos os segmentos, o carro esta na categoria “supérfluo que poucos podem desfrutar” e essa idéia de independência é uma tremenda furada. Vamos dividir em tópicos os principais motivos e começar, logicamente, pelos inexplicáveis valores aplicados tanto nos carros novos quanto nos semi-novos quanto nos usados.

1 – PREÇO.

Pense: o que tem um Renault Kwid ou um Fiat Mobi para custarem na casa dos R$ 70.000,00, ambos nas versões mais “peladas”, sendo carros de entrada – os modelos mais baratinhos de qualquer montadora? Com seus motores 3 cilindros 1.0 litros, oferecem na faixa de 71Cv de potência, montados com pouquíssimo metal e muito plástico. Existe justificativa para um Toyota Corolla, um sedan médio comum, também com algum metal e muito plástico, custar entre R$ 168.000,00 a R$ 200.000,00? Mas piora: um Ford Ranger custa entre R$ 216.342,00 a R$ 328.494,00. É uma pick-up, ou seja, um utilitário, tanto à gasolina quanto à diesel, longe do conforto de qualquer carro de passeio. Já o mesmo Toyota Corolla “semi-novo” versão XEi, ano 2020, custa em média absurdos R$ 120.000,00. Sim, usado, com 5 anos e mais de 50.000km rodados. Assim como o valor médio de um Chevrolet Onix 1.0 Hatchback ano 2020, com mais de 100.000 km é de R$ 70.000,00. Onde está a lógica nisso? Acha um absurdo? Eu também, e aí fica difícil definir o que pensar quando um Chevrolet Silverado custa R$ 469.900,00, um pouco menos do que a RAM 2500, com valor de R$ 560.000,00. Importadas dos Estados Unidos, ambas são pick-ups e custam meio milhão de Reais. Meio milhão em uma pick-up… e tem gente que compra. Compra e ainda financia boa parte do valor, pagando juros bancários mensais que variam entre 1,06 a 1,44% ao mês, o que resulta em algo em torno de 28,6% a 29,5% ao ano. E então vem o seguro, que você não é besta de não fazer em um país dominado pelo crime e um carro é roubado a cada 5 minutos (foram 344.596 ocorrências em 2024), ou acidentes (453.000 registrados, entre janeiro e maio de 2025), e custa, no caso do Fiat Mobi, por exemplo, uma média de R$1.900,00 por ano, ou um Hyundai HB20 na média de R$ 2.840,00 ao ano.

2 – CARGA TRIBUTÁRIA

Claro que todos vão culpar o Governo. E tem de culpar mesmo. Na mão-grande, o onipotente, onipresente e todo-poderoso Governo Federal mete a mão em quase metade do valor do veículo. No caso dos “semi-novo”, “resto de rico” e “favela venceu”, a base de cálculo do indecente IPVA (imposto sobre propriedade de veículos automotores), cada estado é quem aplica a alíquota de ICMS que quer. Em São Paulo, por exemplo, é de 4%. Ou seja, se o carro custa R$ 30.000,00 (um carro popular 2010, 1.0, típica “lasanha bem rodada”), você paga R$ 1.200,00 para poder ter e usar o que já é seu e já está pago. Se não pagar, a Receita Federal vai te achar e o resultado será multa, 7 pontos na habilitação, pagar a plataforma que levará o carro ao pátio do Detran, que vai te cobrar a estadia, você irá para a Dívida Ativa (SPC, Serasa etc) e, no final, se nada for pago entra a ação de execução fiscal quando, para além de todos os bloqueios financeiros e de bens, seu carro vai à leilão.O que deprime qualquer ser pensante é saber que a desculpa esfarrapada, que te obriga a pagar anualmente pelo que já é seu, é que “essa verba é revertida em benfeitorias nas vias e estradas”. Revertida como? Plantando radar caça-multa? Remendando asfalto que se desintegra em uma semana? Ora… vá fazer graça ao jegue, não para mim…

3 – COMBUSTÍVEL

Começando a repensar se vale a pena, mesmo, enterrar suas economias e ainda ganhar um carnê de prestações só para ter um símbolo de status? Então… com as novas regras implantadas pelo Governo Federal, nossa gasolina e nosso diesel, que nunca foram lá essas coisas, pioraram absurdamente. E o resultado vem no bolso do brasileiro, porque os motores sofrem e quebram. A tal gasolina E35, recheada com 35% de etanol não aumenta a octanagem, mas aumenta a quantidade de água, já que o etanol é hidratado, formando uma mistura azeotrópica, em até 5% de água para 95% de etanol, para uso como combustível e se  a teoria diz que a água não se separa do etanol, a prática mostra – há muitos anos – que as coisas são diferentes e um pouco dessa água se separa e vai para o fundo do tanque, que a bomba manda para o motor, que não somente não “entende” o que diabos é esse líquido – causando falhas, perdendo potência e aquecendo mais do que deveria – como seus componentes, que foram projetados para funcionar com gasolina, sofrem corrosões profundas. As montadoras e importadoras são culpadas? Teoricamente não, mas… a globalização fez com que cada parte de cada parte de um carro venha de um canto do mundo, normalmente no canto asiático, cuja engenharia nem sonha que exista uma gasolina tão ruim. Assim, bicos injetores, bombas de alta, sondas etc, se quebram em decorrência das falhas cumulativas e o conserto é caro. No diesel é ainda pior: essa porcaria de biodiesel, tão propagado como genial pelo Governo atual, é um combustível medonho que, se ficar armazenado no tanque por até 15 dias, se decompõe e cria uma gosma que entope tudo, do tanque ao motor, e consertar o motor de uma pick-up de R$ 200.000,00, não interessa a quilometragem, pode custar mais de R$ 25.000,00. Mas então dá para usar só etanol? Dá. Nos modelos Flex, no mercado há mais de dez anos, você pode usar somente etanol. Que tem 30% menos eficiência energética, o que significa que consome bem mais e, para valer a pena, a diferença de preço na bomba tem de ser de, no mínimo, 70% mais barato do que a gasolina. Se a gasolina estiver custando R$ 5,46 e o etanol R$ 4,79 em Santa Catarina, ou R$ 7,12 para a gasolina e R$ 5,40  para o álcool em Rondônia você já sabe a resposta. E a gasolina “Top”?  Não muda alguma coisa em potência, só tem menos etanol na mistura, mais detergentes e dispersantes. Só isso. Já o Governo fatura em média 34% de impostos na gasolina, 24,3% no etanol e até 25% no diesel. Se 1 litro de gasolina custar R$ 6,37 na bomba, o Governo ficará com R$ 2,16 inteirinhos no bolso. Por litro. A média nacional aponta que os postos vendem 10.000 litros de combustível por dia. Bom negócio ser Governo…

4 – TRÂNSITO

Se ainda assim você permanece determinado a ser esfolado por imposto-sobre-imposto (sim, porquê todos estes impostos que você paga já foram cobrados, desde a matéria prima do ferro lá na montanha até a linha de montagem…), observe a imagem ilustrativa acima. Sim, o Brasil em geral oferece a pior infra-estrutura viária do planeta, tanto urbana quanto rodoviária (apesar de o modal de transporte de carga no país ser preponderantemente rodoviário), se equiparando à Etiópia, Haiti, Afeganistão ou “qualquercoizistão” do leste europeu. Como as auto-escolas ensinam entre nada e coisa nenhuma, os motoristas novatos se embananam em qualquer situação, muitas vezes gerando acidentes. Por outro lado, existem (a imensa maioria…) motoristas folgados, que acham que podem andar na velocidade que quiserem (ou excessivamente rápido ou ridiculamente devagar), pararem onde der na veneta, enfim, acreditam que a habilitação vem acompanhada da posse das vias em que resolve trafegar, também gerando acidentes. Existem os motoristas obtusos, tapados mesmo, que sabe-se lá como e porquê estão habilitados. E tem motoristas bons e conscientes também, que normalmente são os que escapam desses acidentes. Todos irão, em algum momento, gastar um bom montante em estacionamentos ou faixas-azuis.  Junte este balaio humano em ruas e avenidas esburacadas, cheias de remendos no asfalto, com sinalização precária, semáforos totalmente fora de sincronismo e está pronto seu teatro de horror urbano. Se for para a estrada, salvo raríssimas exceções, estará rodando em vias de mão simples e pedagiadas, com acostamentos invisíveis, quase inexistentes faixas extras em subidas, bi-trens e rodo-trens acelerando mais do que os carros de passeio, embutidos um na traseira do outro, tornando uma ultrapassagem numa tarefa praticamente suicida e, claro, as pavimentações medonhas. Se aqui fosse um país sério, o asfaltamento seguiria diretrizes corretas, como analisar o clima de cada região e empregar o asfalto adequado, para começar, e não essa patifaria nacional que aplica o mesmo tipo de asfalto tanto em Pinheiro Machado (RS) quanto em Várzea Grande (MT). É lógico que não dará certo, e a indústria da propina agradece. Os engenheiros de tráfego são um caso a parte. Passe por Itajaí (SC) pela BR101 em qualquer dia, horário e sentido, ou trafegue a 50 km/h numa marginal paulistana e depois me diga o que achou…

5 – MANUTENÇÃO

Aqui as coisas pioram. Sim, pioram, apesar de parecer impossível. Como você já deve (ao menos deveria…) ter notado, todo o universo “ter um carro” joga contra o proprietário. Na categoria manutenção, a definição pode ser alterada de proprietário para próprio otário. Porquê é nisso que 90% das empresas do segmento acreditam. Encontrar os 10% que se salvam é um parto à fórceps, mas existem. “Ah, o carro é novinho, vai para a segunda revisão”. Boa sorte. Pesquise em sites como o Reclame Aqui, por exemplo. E não faz diferença se é à combustão, híbrido ou elétrico – quer dizer, faz sim, os eletrificados em geral são os mais prejudicados. O brasileiro é um povo criativo, e se houver uma maneira de ganhar a mais por menos (as vezes por absolutamente nada), é isso o que vai acontecer. Mas vamos pensar em um Renault Sandero RS 2.0, 145 Cv, ano 2017, com valor na casa de R$ 60.000,00 (carro com 8 anos e bem mais de 70.000 km rodados): são 6 litros de óleo 100% sintético 5W40 + 1 filtro de óleo, variando entre R$ 300,00 a R$ 600,00; correia dentada em média R$ 600,00; velas de ignição em média R$ 100,00; pastilhas de freios para as 4 rodas, em média, R$ 500,00; pneus  205/45/17” em média R$ 500,00 cada. Esses valores são as médias de produtos de qualidade; se optar por “economia” e mandar ver nos “baratinhos” as oficinas e concessionárias te agradecerão, e esses valores apontados não agregam a mão-de-obra de cada serviço. Se der uma pane eletrônica – que é o que mais acontece –, se prepare. Só um módulo de injeção central de um Volkswagen Gol G6 1.0 comum custa, em média, R$ 2.000,00. Não, a oficina da esquina não tem um scanner capaz de identificar e solucionar o problema. No máximo localiza, e só. Porque nenhuma montadora é burra o suficiente para distribuir softwares e atualizações por aí, sendo que o grande faturamento de suas concessionárias advém do pós-venda. O cara que vende carro não fala desses assuntos, não é? Pois é… Bateram em seu carro? Roubaram ou furtaram? O seguro fará de tudo para não te reembolsar. É um martírio completo com todos os opcionais e acessórios. Resolveu pagar o conserto “do bolso”? Um farol do Peugeot 3008 custa em média R$ 5.000,00, mesmo valor para a capa plástica do pára-choque dianteiro. Valores de peças originais; se inventar de colocar as “paralelas”, mais baratinhas, descobrirá que raramente se alinham, os encaixes não coincidem e a matéria prima é de lascar, por isso custam baratinho e seu carro ficará uma m…

6 – REVENDA

Então, quando você conclui finalmente que ter carro no Brasil é burrice, e das grandes, você pensa em se livrar do abacaxi, se precisar usará serviços de aplicativos e, para viajar, alugará um carro e pronto – sempre novinho, bonitinho, cheirosinho e se der qualquer tipo de problema a locadora te entrega outro. Você não quer trocar de carro, quer vender. E aí já começa a dificuldade. A internet ajuda menos do que atrapalha. Golpista é o que não falta e, se resolver anunciar em um desses sites de classificados, nunca forneça seu endereço para os interessados; marque no pátio de uma delegacia ou algo assim e nunca, jamais, vá sozinho. Essas medidas já ajudam a minimizar os riscos mas, como já mencionado, brasileiro é criativo e criminoso brasileiro é mais ainda. Então nunca, jamais preencha ou assine qualquer documento, nem mesmo dentro do cartório, ou seu carro já era e não terá para quem você reclamar. O que sobra então são os lojistas. Que vão fazer de tudo para você trocar de carro com eles; diante das negativas, insistirão para que deixe o carro em consignação. Que vai demorar uma eternidade para ser vendido porquê a margem de lucro é muito mais baixa. Então ele topa comprar seu carro, aquele que vale na casa dos R$ 60.000,00, te oferecendo R$ 40.000,00 no máximo. Como você continua não entendendo nada de mecânica, eletro-eletrônica ou lataria, ele apontará um milhão de defeitos, justificando a oferta. Se você entrar no papo-furado dele, mande algum amigo na loja, dois dias depois, fingindo interesse no carro, que será oferecido à princípio, por R$ 70.000,00 e, depois de muita dança em volta dos números, chegará nos R$ 60.000,00 sem que tenha sido feito nada além de um simples banho.

7 – CONCLUSÃO

Bem, chegamos ao final. Ficou um pouco extensa a matéria, por ser impossível resumi-la mais do que resumi, e deixei de lado incontáveis exemplos corroborativos com o contexto, que é apontar a asneira que é ter um carro no Brasil. Da fabricação à revenda, o único que perde bastante dinheiro é você. A montadora não perde, as distribuidoras e os postos de combustível não perdem, concessionárias e oficinas não perdem, estacionamentos e flanelinhas não perdem, bancos não perdem, seguradoras não perdem, lojistas não perdem, mas você sempre perde e quem ganha mesmo, e muito, o tempo inteiro, sem fazer nada, é o Governo Federal, muito mais do que os Governos Estaduais. Mas já não era assim há tempos? Era. Mas o certo é que ter um carro jamais foi tão economicamente letal quanto é agora, e piorando. A indústria nacional sempre foi uma espécie de depósito do que era rejeitado ou ultrapassado no 1º Mundo. Não acredita? O Fiat Tipo, entre inúmeros exemplos, entrou no mercado europeu em 1988, e chegou no Brasil em 1995, quando saiu de linha na Itália. Em contrapartida, o Japão inteiro, que cabe no Pará, terminou a 2ª Guerra Mundial devastado, paupérrimo e devendo horrores. Há décadas possui 3 gigantes automotivos, 4 gigantes motociclísticos e diversos gigantes em tratores etc. O Brasil não tem nada disso, porquê os conchavos governamentais nunca olharam para o próprio país. Tanto é que a China produz hoje 25 milhões de carros por ano, podendo chegar a 50 milhões se der vontade. O Brasil não produz 3 milhões; em 2024 emplacou 2.48 milhões de automóveis e comerciais leves. Um bom contraste entre a indústria automotiva nacional e a “estrangeira” é ver que a BMW dos Estados Unidos produziu e emplacou 396.117 unidades em 2024, enquanto que no mesmo período a BMW no Brasil produziu e emplacou 11.000 unidades. E ainda assim, você vai mesmo comprar um carro? Você entende profundamente de mecânica, eletro-eletrônica e lataria? Não? Quase ninguém é. Então, antes de botar suas economias numa dor de cabeça, assim como para vender essa dor de cabeça, contrate um profissional. Existem muitos autônomos, que entendem do riscado, de mercado, valores e que sabem que antes de mais nada o carro deve passar por uma Vistoria Cautelar confiável, um levantamento completo do histórico do carro etc, e boa sorte!

O texto é de exclusiva responsabilidade do seu autor.

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