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Muito Além de Rodas e Motores | GP da América do Sul, de Buenos Aires a Caracas de carretera

Imaginem há 75 anos, no pós-Segunda Guerra Mundial, uma corrida de carros cobrindo toda a América do Sul, em mais de 9 mil quilômetros, em estradas sem pavimentação, sem suporte algum e de carreteras, em sua maioria sedans Ford e Chevrolet transformados, muito rápidos, mas pouco estáveis e seguros?

Acho que não dá para imaginar, pois nem no Brasil existiam muitas estradas pavimentadas e para vir de Porto Alegre para São Paulo já era uma aventura. Imaginem subindo de Buenos Aires a Caracas, passando pela Cordilheira dos Andes e vários trechos de deserto?

Esse foi o Grande Prêmio América do Sul. Disputado entre os dias 20 de outubro e 8 de novembro de 1948, passando por 9.576 quilômetros de estradas primitivas da Argentina, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, cumprido em 14 etapas e que reuniu 14 pilotos de países da América do Sul, dos quais apenas 26 completaram o percurso.

Também conhecida como La Buenos Aires-Caracas, foi uma corrida idealizada pelo Automóvel Clube da Argentina para carros da categoria Turismo Carretera, formada por antigos automóveis preparados para competições de velocidade em estradas, idealizada pelos argentinos e depois copiadas pelo Brasil e alguns países do continente.

A corrida foi inicialmente planejada para começar em Buenos Aires e terminar no Canadá, mas por problemas diversos da época, como o conflito entre o Peru e o Equador, e dificuldades na América do Norte e no Caribe, além dos efeitos da segunda guerra mundial, foi replanejada para ser encerrada em Caracas.

Essa longa competição teve como modelo a prova realizada em 1940 no percurso de Buenos Aires-Lima-Buenos Aires como teste para uma corrida de longa distância que reunisse pilotos de todo o continente, com passagem por todas as capitais. A corrida, com o nome de Grande Prêmio Internacional do Norte, teve a vitória de Juan Manuel Fangio, pilotando um Chevrolet.

O Grande Prêmio América do Sul foi a mais longa, difícil e perigosa competição de toda a história da categoria Turismo Carretera por verdadeiros caminhos improvisados, clima variado e a inevitável ocorrência de acidentes, mas com um ambiente de ajuda mútua e de máxima solidariedade entre os concorrentes.

Por esse clima de amizade vários deles comprometeram as suas posições na corrida para prestar socorro aos que se acidentaram. Entre as vítimas dos péssimos caminhos esteve Juan Manual Fangio, que nas proximidades de Huanchaco, no Peru, não conseguiu evitar a queda de seu carro num precipício.

Nesse acidente, Oscar Gálvez, que era o líder da competição, demonstrou um gesto humano interrompendo sua corrida para ajudar Fangio e Daniel Urrutia, seu copiloto. Outro competidor favorito à vitória, Eusébio Marcilla, abandonou a corrida para socorrer os dois adversários e amigos e levá-los a um hospital. Infelizmente, Daniel Urrutia falaceu, mas a atitude de Marcilla foi reconhecida com o título de Cavalheiro do Caminho, recebido do Automóvel Clube da Argentina.

Além dos acidentes, as dificuldades da corrida foram demonstradas pela velocidade média da prova. O vencedor cumpriu o percurso à média de 80,730 quilômetros por hora e houve etapas mais lentas, como entre Pasto e Cali, na Colômbia, com velocidade de 61,980 quilômetros por hora.

A corrida da solidariedade, como foi chamada, teve a vitória de Domingo Marimon, com Chevrolet Master, que cumpriu o percurso de 9.576 quilômetros no tempo de 118 horas, 27 minutos e 18 segundos. Nessa primeira grande maratona da América do Sul, a família Gálvez foi a grande atração, vencendo 12 das 14 etapas, sete por Oscar e cinco por Juan. Apenas duas etapas foram vencidas por Juan Manuel Fangio e Victor Garcia. O campeão da prova, Domingo Marimon não venceu nenhuma etapa.

A corrida em que a família Gálvez dominou amplamente terminou com tristeza e decepção porque o carro de Oscar, que liderava a corrida, sofreu a quebra do virabrequim do motor no final da última etapa. Desesperado, aceitou a ajuda oferecida por um espectador que, conduzindo o seu Buick, empurrou o Ford de Oscar até cruzar a meta, sob fortes aplausos e comemorações dos venezuelanos. Mas, enquanto comemorava a vitória foi informado por Fulvio Pastor, da comissão desportiva da prova, que foi desclassificado por irregularidades mecânicas em seu carro e por ter cruzado a meta empurrado por outro veículo.

Decepcionado, Gálvez fez um recurso à organização e também enviou telegrama ao presidente da República, Juan Domingo Perón, sofrendo outra frustração ao receber a resposta do presidente: se houver regulamento para a corrida, as regras devem ser cumpridas. As regras diziam que os carros tinham que cruzar a meta em movimento pelos seus próprios meios.

Acesse nossos podcasts: https://soundcloud.com/user-645576547/gp-da-america-do-sul-de-buenos-aires-a-caracas-de-carretera

Crédito das imagens: Arquivo Internet – Fonte: [email protected]

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