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Muito Além de Rodas e Motores | A inesquecível vitória nas Mil Milhas Brasileiras de 1970

“Pilotar uma Alfa Romeo da equipe Jolly Gancia foi uma fase muito emocionante e importante da minha vida, ouvindo aquele ruído do motor respondendo às aceleradas. Lembrar das corridas é um momento de emoção e nostalgia porque resta somente a saudade do prazer que o carro nos proporcionou para mim e para meu irmão Alcides”, destacou Abílio Diniz em um depoimento.

Esta semana sofremos com a perda de mais um personagem do automobilismo esportivo brasileiro, Abílio Diniz. E, entre as mensagens que recebi sobre o acontecido, em um vídeo enviado por Carlo Gancia, filho de Piero e Lulla Gancia, pude reviver momentos incríveis dos quais participei ativamente e que não saem de minha mente.

Aliás, felizes aqueles, como eu, que puderam desfrutar e curtir as décadas de 70 e 80, tempos únicos e de muita criatividade, coragem, irreverência, com mentes e corpos em ebulição. No automobilismo brasileiro então, nem se fale.

No depoimento, Abílio estava se referindo à sua vitória, em dupla com o seu irmão Alcides, na edição de 1970 das Mil Milhas Brasileiras. Lembro que aquela edição foi marcante. Primeiro pelo número de inscritos, mais de 50 veículos naquela época. Segundo porque reuniu, além dos carros de brasileiros preparados, alguns modelos inéditos e sensacionais, como a grande favorita, a Ferrari 512S, com o inconfundível motor V12 de 5 litros e 550 cavalos, e pilotada por Giampiero Moretti e Conrado Manfredini, a Alfa Romeo P33, o Porsche 910 e a vitoriosa Alfa Romeo GTAm, da equipe Jolly-Gancia, importada pelos irmãos Abílio e Alcides Diniz, especialmente para a competição.

Apesar de serem menos velozes que o Porsche e a Ferrari, as Alfa eram carros extremamente competitivos em provas de longa duração. Alcides Diniz completou a primeira volta na 21ª posição e com três horas, a dupla já estava na quinta posição. Depois de 12 horas e 50 minutos, Abilio e Alcides venceram as Mil Milhas com 3 voltas de vantagem sobre o segundo lugar, o Porsche 910, pilotado por Mário Olivetti e José Moraes.

Apesar de grande favorita, pois havia terminado a Le Mans daquele ano em quinto lugar, a Ferrari liderou grande parte da prova, mas teve problemas mecânicos e ficou quase três horas nos boxes.

E voltando ao vídeo do Abílio que recebi de Carlo Gancia, ele resumiu o sentimento de muitos. Na verdade, todos com os quais convivi desde então.

“Ganhamos importantes corridas brasileiras e vivemos momentos inesquecíveis e muito estimulantes”, comentou Abílio.

Carlo Gancia sempre acompanhou as relações entre as duas famílias e foi um dos amigos que maior tristeza sentiram com a perda de Abílio.

Na década de 1990, ele, Carlo, assumiu o trabalho de administrar a carreira esportiva de Pedro Paulo Diniz, filho mais jovem de Abílio e o acompanhou até a Fórmula 1.

Carlo Gancia lembra que Pedro Paulo nunca competiu com grandes recursos técnicos, mas que em uma sessão de classificação para a formação do grid de uma prova da Fórmula 3, na Espanha, Pedro Paulo foi o piloto mais rápido e tinha esperança de se classificar muito bem, pois demonstrou mais habilidade na pista travada.

Com esse desempenho, em uma reunião com Abílio Diniz, Carlo ficou feliz ao receber os cumprimentos e ouvir a seguinte frase: “Lhe entreguei um menino e você fez dele um homem”.

Carlo conta que o caminho à Fórmula 1 com a equipe Forti Corse começou nos anos de 1990. Segundo ele, a Forti Corse já existia e era uma equipe tradicional da F3 e da F3000, predecessora da atual F2. Havia vencido os campeonatos italiano e europeu de F-3, entre 1985 e 1989, e disputado o certame de Fórmula 3000 entre 1987 e 1994, com a conquista de um vice-campeonato de construtores, em 1992 e o terceiro lugar, em 1991.

“Levamos o Pedro Paulo para lá em 1993, depois dele ter corrido dois anos na F3 inglesa. No final de 1994, depois de dois anos na categoria, o Abílio e eu estávamos pensando em como dar sequência na sua carreira e decidimos que talvez fosse interessante levar a Forti para a F1. O Abílio encarou a parada e fomos para a F1”, comenta Carlo.

A estreia foi no GP do Brasil de 1995 e contou com o investimento de patrocinadores, a maioria ligada ao setor de supermercados, fornecedores e agências de propaganda. Arisco, Unibanco e Kaiser foram os primeiros. Depois veio a Parmalat, que acabou sendo o patrocinador principal da equipe, além de MasterCard, Café Cacique, Duracell, Bayer que não aparecia no carro, Philip Morris, com Marlboro e Kibon, Sadia, Gillette e STP.

“Os patrocinadores ficaram felizes com os resultados que alcançaram apoiando a equipe, apesar de, na pista, o desempenho não ter correspondido pela pouca competitividade do carro, desorganização da equipe e a conduta dos responsáveis”, contou Carlo.

“De 1994 a 1997, a Parmalat quintuplicou suas vendas ao Grupo Pão de Açúcar. A Kaiser passou de terceira para a maior marca de cerveja na cidade de São Paulo. E a Duracell mundial em sua história nunca teve um projeto que impulsionou as vendas como foi o nosso” enfatizou Carlo Gancia.

Além de todas as realizações que alcançou como empresário, um dos mais destacados do Brasil em toda a história, Abílio Diniz também venceu, em dupla com Alcides, as “12 Horas de Interlagos” de 1971, outra importante competição do calendário brasileiro. Foi tricampeão brasileiro de Motonáutica, sem esquecer o importante apoio que, pelo seu intermédio, o Grupo Pão de Açucar deu ao esporte brasileiro, desde o atletismo até o triatlo, passando por diversas outras modalidades.

Para finalizar e demonstrar todo o foco, determinação, dedicação e espírito competitivo que Abílio sempre teve, destaco mais um de seus comentários.

“A vida de piloto exige dedicação integral, que o obriga a treinar, correr e acompanhar os serviços nas oficinas da equipe. E eu não podia descuidar das empresas e de sua administração. Por essa obrigação, precisei abandonar os momentos inesquecíveis e muito estimulantes que os carros me proporcionavam”.

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