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Mercado: Está todo mundo louco! Oba?

Fotos: Renato Pereira

O mercado de automóveis no Brasil, por diversos motivos (isolados ou juntos) sempre ofereceu uma dificuldade enorme para ser entendido. Alguns fatores facilmente detectáveis, no entanto, sempre foram e sempre serão determinantes na sobrevivência do que quer que seja movido a rodas e motor por aqui, que são: valores inexplicavelmente absurdos aplicados pela indústria, que culpa a também absurda – para não dizer ridícula – tributação continuadamente fixada por governos indignos de confiança, o que leva à redução dos investimentos em novos modelos e nos vemos eternamente com lançamentos nacionais das versões que saíram de linha há tempos nos países de origem das montadoras. Some-se a esse conjunto a mentalidade ainda tacanha do consumidor envolta em nuvens de tabus, em grande parte criados e alimentados pela própria indústria do comércio de cada montadora, a fim de esconder toda a idade e ineficiência de seus modelos, e temos aí uma visão rápida do cenário de nosso mercado. De início, vamos dar uma “destrinchada” nesses pontinhos básicos?

1) O “Fator Tributação” não é nada fácil de se entender, qualquer equação será totalmente imprecisa e isso não é sem motivo; afinal, se ficassem claras todas as bases de cálculos de impostos, taxas e contribuições ao longo da cadeia produtiva haveria uma rebelião popular. Tudo o que se emprega na montagem de um veículo sofre a mesma insanidade da tributação sobre tributação, acumuladas, redundando um valor final incompatível com a realidade terrestre. O ferro e o aço empregados na composição de peças e componentes, por exemplo, não “nasceram” assim, foram extraídos e processados e sendo tributados desde a montanha até a montagem final no veículo, que será novamente tributado assim que suas rodas tocarem o solo de alguma concessionária.

Esquecendo-se do que foi mencionado acima, e concentrando-se apenas na soma nominal média das alíquotas de impostos, teremos teoricamente algo em torno de 30% do valor final de cada unidade em impostos, taxas e contribuições. Se a conta for feita da maneira mais simples, que é dividir o valor final tributado pelo valor final sem tributos, usando um número redondo, fica mais ou menos assim: R$ 100,00 ÷ R$ 70,00 = R$ 1,43 ou 43% (e não aqueles 30%…) o que parece uma mixaria, mas se você jogar esse valor para próximo de um modelo pereba qualquer, na casa dos R$ 30.000,00, entenderá que esta alimentando com algo próximo a R$ 9.000,00 entrando alegremente para os cofres da União, que sabe-se lá aonde (quer dizer, sabemos, né…) vai parar. Isso em modelos “perebas” nacionais… se o motor do veículo em questão for de 2,0 litros para cima, a razão sobe para mais de 45% e se o veículo for importado aí a coisa fica bem além dos 100% do valor final, incluindo-se frete e tudo o mais. Gostou? Não? Mas é difícil ser diferente…

2) Diante desse quadro de total desequilíbrio, evidentemente a indústria automotiva brasileira sofre de gravíssimos problemas de custos de produção, infra-estrutura e produtividade. Nem no capitalismo nem no comunismo se produz, processa ou constrói o que quer que seja sem visar lucro, afinal, as pessoas tem necessidades “estranhas”, como se alimentar, se vestir, se abrigar, se deslocar etc, e tudo isso tem um custo. Logo, a obsolescência de nossa frota nacional é mais do que natural. Poucos se arriscam a investir em países com governos obscuros e níveis de corrupção inimagináveis, a menos que justamente a obscuridade e a corrupção os favoreça, e fica fácil entender porque poucas montadoras se aventuram a se implantar por aqui. Salvo raros exemplos, as que topam torrar milhões de Dólares em uma nova planta industrial em um país à deriva é para dar destino as linhas de montagem de modelos descontinuados em seus países de origem. Porque seria diferente no Brasil, que tem todos os predicados mencionados? Existem investimentos em novos e modernos pátios no país? Existem. Mas são mínimos se comparados com tudo o que já existe e não se moderniza. Gostou? Não? Mas é difícil ser diferente…

3) Qual a melhor maneira de se produzir e vender coisas velhas e ultrapassadas do que sabatinar sem nenhum escrúpulo um povo que não é dado a ler, se instruir ou se informar? Simples, fazendo-o acreditar que as inovações tecnológicas não existem, que se existem quebram muito, são muito caras, não funcionam, e pular de ponta-cabeça na discriminação pura e simples! Levamos anos-luz frente ao restante do mundo para começar a deixar de acreditar que “carro branco é de frota, carro com quatro portas é táxi, carro com transmissão automática é para aleijado” e por aí vai. Gostou? Não? Mas é difícil ser diferente…

Todo esse batuque do afro-descendente tresloucado resultou em um ambiente onde pode existir tudo, menos lógica, razão e sensatez. Modelos excelentes são relegados ao limbo, enquanto outros há muito superados continuam em produção. Marcas e montadoras sofrem da discriminação pela generalização, por serem oriundas desse ou daquele país, enquanto marcas tradicionais produzem seus modelos exatamente nesses países tidos como ruins e ninguém fica sabendo, porque ninguém informa, e quando um proprietário descobre que não, aquele carrão dos seus sonhos que custou uma fortuna não veio da Alemanha, Japão ou Estados Unidos, veio da Índia, da China, de Taiwan ou da Argentina, imediatamente o coloca à venda e desce o sarrafo na marca, mesmo que o produto seja excelente, assim como modelos simplórios, de entrada (o primeiro carro…) em qualquer outro país aqui é “símbolo de status” e custam fortunas, tornado-nos alvos das mais grosseiras piadas mundo afora. Gostou? Não? Mas é difícil ser diferente…

Passada a euforia que a bolha ilusória criada nos 12 últimos anos, com a moeda agora chegando finalmente em seu nível real, o poder de compra também ilusório estabelecido em seu patamar verdadeiro e a conseqüente completa desaceleração produtiva em que vivemos, as demissões em massa em todos os setores econômicos e a fuga das indústrias de nossas fronteiras para países sérios, o que temos hoje para o jantar são as montadoras paradas, fornecedores e terceirizados às moscas e falindo, e um estoque gigantesco de veículos zero quilômetro apodrecendo ao sol. Não obstante, a cegueira burra (ou seria burrice cega?) não só permanece como aumenta em alguns lugares, os que determinam os valores – que seriam risíveis, senão ridículos – praticados pelas montadoras e importadoras pelo país afora. Está todo mundo louco? Se dermos uma olhada nos volumes de vendas dos modelos médios, teoricamente os mais comercializados, no período que compreende o mês abil deste ano e compará-las com o mesmo período de 2014, entenderemos facilmente que não houve diminuição da natalidade nem redução da passagem para a maioridade no Brasil, o que houve foi o desaparecimento do dinheiro em todas as camadas sociais somado à aplicação de valores estapafúrdios, e o resultado é essa falência múltipla dos órgãos industriais. Confira os valores básicos sugeridos, sujeitos a alterações em função dos acessórios (a não ser que seja um frotista, você nunca encontrará a versão básica á disposição…) e uma comparação do que se pode comprar com os mesmos valores também absurdos, uma vez que, mesmo sendo muito melhores do que os 0/km de valor igual, são usados!

 

Os três Hatchback Médios mais vendidos em abril foram:

FIAT                                                                                                  

Modelo: Pálio, todas as versões

Mês 04/2014>   15.409 unidades

Mês 04/2015>     8.841 unidades

Diferença>         6.568 unidades / – 42,6%

Origem: Brasil

Preços básicos, sujeitos a alterações de acordo com equipamentos e acessórios:

De 1.0 Fire > R$ 27.340,00 (valor correspondente a um Ford 1.6 Ka Sport 2013) a 1.6 Sporting Dualogic> R$ 52.154,00 (valor correspondente a um Peugeot 1.6 3008 Allure 16V THP Turbo 2011).

CHEVROLET

Modelo: Onix, todas as versões

Mês 04/2014>   13.247 unidades

Mês 04/2015>     8.783 unidades

Diferença>         4.464 unidades / – 33,7%

Origem: Brasil

De 1.0 LS SPE> R$ 40.590,00 (valor correspondente a um Ford 1.6 Focus GL 16V)

a 1.4 LTZ SPE> R$ 57.790,00 (valor correspondente a um Mercedes-Benz 2.0 B200 2010).

HYUNDAI

Modelo: HB20, todas as versões

Mês 04/2014>   9.715 unidades

Mês 04/2015>   8.753 unidades

Diferença>          962 unidades / – 9,9%

Origem: Brasil

De 1.0 Comfort> R$ 38.595,00 (valor correspondente a um Fiat 1.6 Idea Essence 16V Dualogic 2013 a 1.6 Premium> R$ 56.355,00 (valor correspondente a um Volkswagen 2.0 Jetta Comfortline 2012).

Já os três Sedan Médios mais vendidos em abril foram:

TOYOTA

Modelo: Corolla, todas as versões

Mês 04/2014>   5.566 unidades

Mês 04/2015>   5.760 unidades

Diferença>          194 unidades / + 3,5%

Origem: Brasil

De 1.8 GLi> R$ 69.690,00 (valor correspondente a um Audi 2.0 A4 Turbo Multitronic 2009) a 2.0 Altis> R$ 96.330,00 (valor correspondente a um BMW 2.5 325 24V 2012).

HONDA

Modelo: Civic, todas as versões

Mês 04/2014>   5.766 unidades

Mês 04/2015>   2.724 unidades

Diferença>       3.042  unidades / – 52,8%

Origem: Brasil

De LXS 1.8>  R$ 68.400,00 (valor correspondente a um Mitsubishi 2.0 Lancer 16V 2016)

a Si 2.4> R$ 124.000,00 (valor correspondente a um BMW 3.0 335i 24V 2010).

NISSAN

Modelo: Sentra, todas as versões

Mês 04/2014>   1.481 unidades

Mês 04/2015>   1.163 unidades

Diferença>           318 unidades / – 21,5%

Origem: México

De 2.0 S> R$ 67.090,00 (valor correspondente a um Citroën 2.0 C4 Picasso 2013) a 2.0 SL> R$ 78.390,00 (valor correspondente a um Volvo 3.0 XC60 Comfort AWD 2010).

Realmente… está todo mundo louco!

 

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