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Lancia Delta e sua magnífica história

Fotos: Renato Pereira

A Lancia Automobiles S.p.A. (Società per Azioni) é uma das mais antigas montadoras da Itália, fundada em Turin, região de Piemonte, no dia 29 de novembro de 1906, por Vincenzo Lancia – ex-piloto de testes da Fiat – e Cláudio Fogolin. Inovadora e ousada, poucas fabricantes foram tão importantes em desenvolvimento tecnológico quanto a Lancia, onde nem mesmo as duas guerras mundiais conseguiram derrubar sua constante busca pela perfeição, já que as pausas obrigatórias para a produção de equipamentos militares fizeram surgir os modelos Lambda e Aprilia nos momentos de paz.

Em 1913 o modelo Theta contava com sistema elétrico completo, em 1922 o Lambda foi o primeiro carro monobloco, em 1948 o Ardea tinha câmbio de 5 marchas, além de a Lancia ser a primeira fabricante de motores V4 e adotar suspensões independentes em seu modelos. O primeiro automóvel da marca foi produzido em 1908, chamado 12 HP (ou Tipe 51), até que em 1919 foi rebatizado, por conselho de Giovanni Lancia, irmão do fabricante, para Lancia Alfa, introduzindo, então a escolha de nomes de letras do alfabeto grego para designar os modelos da fabrica. O 12 HP usava um motor de quatro cilindros, 2.545cc, que girava a 1.800 Rpm, bastante alto para a época, gerava 58 Cv e atingia 90 quilômetros por hora. Assim como todos os fabricantes da época, que enxergavam nas competições o apelo ideal para demonstrarem as qualidades de seus carros, Vincenzo e Fogolin também seguiram esse caminho, e Juan Manuel Fangio venceu seu quarto título mundial a bordo de um Lancia; porém foi no território dos rallyes que a marca fez efetivamente sua fama, com o Stratos V6 e o Delta HF Integrale.

O Lancia Delta era um hatchback cinco portas, desenhado por Giorgetto Giugiaro,  lançado em 1979. Durante algum tempo, foi vendido na Suécia pela Saab Automobile, rebatizado como Saab 600. Por seu estilo contemporâneo, o Delta foi eleito Carro Europeu do Ano em 1980, mesmo momento em que chegou ao Reino Unido, permanecendo praticamente inalterado até 1986, quando pequenas mudanças foram feitas na carroceria, os motores foram atualizados e o modelo com tração nas quatro rodas motrizes introduzido – enquanto as demais versões do Delta eram carros pequenos,  familiares, a versão “poderosa” era o Delta HF Integrale, com tração nas quatro rodas, com um sistema onde 3 diferenciais são o “coração” do sistema: a tração dianteira estava ligada através de um diferencial de livre flutuação; a tração nas rodas traseiras era transmitida através de um diferencial Ferguson viscoso de acoplamento controlado pelo diferencial epicíclico central, conhecido como Torsen, um verdadeiro  diferencial “inteligente” na forma como distribui o torque, dividindo-o entre as rodas de acordo com a aderência disponível, e o fazia sem nunca travar totalmente, com bloqueio máximo é de 70% e motor turbocharger. Para as competições, uma versão mais apimentada foi criada, dominando o WRC com 46 vitórias e seis títulos de Campeão de Construtores consecutivos, entre 1987 a 1992, além dos campeonatos conquistados por Juha Kankkunen – 1987 e 1991 – e Miki Biasion – 1988 e 1989.

Apesar do fato de que o Delta Integrale 8v ter dominado o Campeonato Mundial de Rally de 1988, a Lancia sabia que o desenvolvimento, e particularmente mais potência, eram necessários para manter o carro competitivo contra os rivais mais recentes. Assim, o Delta Integrale 16V foi desenvolvido, vencendo logo na estréia do Mundial o Rally de San Remo de 1989. O novo carro era facilmente identificável com relação a seu antecessor, com o centro do capô levantado para acomodar o novo motor, rodas e pneus mais largos e novos emblemas dianteiros e traseiros. A divisão do torque foi alterada para 47% para a dianteira e 53% para a traseira, conferindo ao carro melhores características de pilotagem. Mas a vida não foi assim tão fácil para o pessoal da Lancia.

Durante o início de 1980, o nível mais alto dos carros de rali eram os do Grupo B, para o qual a Lancia produziu o modelo 037 com tração traseira e depois, quando isso se tornou obsoleto, sua evolução, o Delta S4. O grupo B inteiro foi abolido no final da temporada 1986, após uma série de acidentes fatais, deixando o Grupo A como a categoria superior de 1987 em diante. Essa mudança repentina das regras deixou muitos fabricantes sem um carro adequado para a competição, com exceção da Lancia, que tinha o Delta HF4WD, com motor 2,0 Litros, turbo e com tração nas quatro rodas, para lutar contra os Mazda 323 e Ford Sierra XR, ambos 4×4,  os Ford Sierra Cosworth e BMW M3, com tração traseira e os Opel Kadett GSi e Renault 11 Turbo, com tração dianteira. Como eu disse, a vida não foi tão fácil.

Com restrições quanto as caixas de rodas e rodas, os freios ficaram muito pequenos e o curso da suspensão foi limitado, além do acesso a componentes-chave, para a manutenção, também ficou restringido pelo tamanho compacto do carro, com seu motor transversal. Mesmo assim, haviam poucas dúvidas antes do início da temporada de 1987, que venceu o Campeonato Mundial de Rally, com seus carros pilotados por Mássimo Biasion, que venceu o Rally de Monte Carlo, Argentina e San Remo; Juha Kankkunen, com quatro pódios e as vitórias do Olympus e a etapa final do britânico Rac, sagrando-se campeão, à frente de Markku Alén. Os Lancia Delta HF4WD venceram 7 das 11 etapas válidas pelo Mundial. Abriram a temporada de 1988 com Bruno Saby vencendo em Monte Carlo e Markku Alén na Suécia, quando o modelo Delta HF Integrale 8V estreou, na terceira etapa, em Portugal, com vitória de Mássimo Biasion, campeão da temporada; uma nova caixa de câmbio de seis marchas foi desenvolvida e estreou na etapa seguinte, com os Lancia Delta HF Integrale dominando amplamente o campeonato, onde apenas Didier Auriol conseguiu incomodar sua supremacia com um Ford Sierra Cosworth na Córsega.

No total, foram 10 vitórias em 11 provas dos carros com o símbolo HF (High Fidelity) e o elefante vermelho na dianteira. Em 1989, agora com Didier Auriol e sem Juha Kankkunen, os carros italianos continuaram imbatíveis, onde somente o próprio Kankkunen, com Toyota Celica GT4, deu um pouco de trabalho na série de vitórias dos Lancia Delta HF Integrale 8V, vencedor das 12 provas do Campeonato Mundial. Mas os concorrentes estavam trabalhando duro, e Mikael Ericsson, com Mitsubishi Galant, Kankkunen com Toyota Celica GT4, e Kenneth Eriksson, também com Mitsubishi Galant, começaram a dar trabalho. O contra-ataque italiano teve nome, e foi: Lancia Delta HF Integrale 16V, com seus quase 400 Cv de potência! Com esse novo carro, Biasion, Auriol e Kankkunen, de volta a casa de Turin, levaram mais um título de Construtores para a Lancia, que ainda desenvolveu uma versão mais competitiva, chamada Evoluzione. Porém, com base em um carro que já não tinha mais de onde se extrair qualquer coisa, pela idade de seu projeto inicial, a montadora italiana retirou-se oficialmente dos campeonatos no final de 1991, deixando a impressionante marca de dois títulos de Campeão Mundial para Juha Kankkunen, dois para Mássimo Biasion, 46 vitórias no total e 6 títulos de Construtores consecutivos do Campeonato Mundial de Rally para ser batida!

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