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Importados Novos: você vai mesmo comprar?

Colaboração para o CPN, em Curitiba (PR)

Até alguns anos, o sujeito que queria comprar um carro tinha, entre 4 opções de montadoras, em torno de 20 diferentes modelos, entre hatchback, sedan, coupé, station, wagon, furgão e pick-up, e não mais do que 3 versões oferecidas de cada um desses modelos. Era fácil e rápido e bastava uma passeada em revendas de usados (não existia o eufemismo “seminovo” na época) para saber quanto o modelo escolhido desvalorizaria ano a ano.

Após o advento Collor liberando a importação, as coisas desandaram numa velocidade meteórica. Um tsunami de montadoras e modelos, oriundos dos 4 cantos do planeta desembarcaram aqui; desses, 10% eram bons, e o restante ninguém queria nem em seus países de origem. A “peneirada” natural, após a empolgação inicial mandou muita coisa ruim embora e muita coisa boa chegou, embora exista, como em qualquer país, a oferta de tranqueiras obsoletas e inúteis para quem insistir em ser feito de bobo.  

Somos um país de tabus, e no mundo dos automóveis criaram-se incontáveis tabus, como não poderia deixar de ser, um deles reza que um carro “bem conservado” é o que roda 10.000 (no máximo 15.000) quilômetros por ano, em torno de 840 quilômetros mensais.  Na carona dessa máxima, veio também a crença de que carro com mais de 40.000 quilômetros já está estropiado. Importado, com mais de 20.000 quilômetros então, nem pensar. Talvez sejam essas crenças estapafúrdias sem pé nem cabeça que fazem com que nosso mercado hoje, final de 2018, seja ainda tão ininteligível, estranho, ilógico e qualquer outro adjetivo que você, leitor, quiser empregar. Essas manias podiam (mas não eram) ser verdadeiras em 1976, em 1980, mas o mundo evoluiu, a engenharia evoluiu, a ciência evoluiu, até o ser humano evoluiu. Logo é de se entender que com toda essa evolução em materiais, combustíveis, lubrificantes, borrachas, combinações, sistemas de produção etc., a vida útil de um automóvel e seus componentes tenha aumentado consideravelmente, não é?

Na cabeça do consumidor brasileiro não, não é. Como o negócio das montadoras e importadoras é vender e desentupir seus pátios, claro que não vão mexer uma palhinha sequer para mudar esse quadro, embora qualquer cabeça pensante entenda que é uma rajada nos pés suas políticas de preços, já que oferecem uma mixaria ridícula em seus próprios produtos como parte de pagamento de um zero quilômetro. Ninguém pensou nisso? Sério?

Pois é, foi com tudo isso em mente que surgiu essa matéria. O que acontece nesse país para que um carro criado para rodar algo em torno de 400.000 quilômetros sem nada para além de sua manutenção básica seja tão absurdamente desvalorizado a cada quilômetro rodado? Não se trata de esse ou aquele modelo dessa ou daquela montadora… tratam-se de todos e quaisquer veículos importados, em que as próprias importadoras relegam à classificação “porcaria que não vale nada” com menos de 10% de sua vida útil atingida. Além do que, o que justifica os valores praticados em seus modelos 0/km, você leitor poderá ver a seguir.

Para garantirmos dados e valores corretos, utilizamos os preços fornecidos pela Fipe (aquela tabela que os comerciantes só usam na hora de vender os carros deles e jamais na hora de comprar o seu), atualizados e as moedas estrangeiras pela cotação do dia 04/12/2018; escolhemos alguns modelos – aleatoriamente, nenhuma possibilidade de beneficiar ou atrapalhar as vendas de quem quer que seja – bastante comercializados no Brasil e, seguindo os tabus anteriormente citados, situamos esses modelos entre 2018 0/km (no Brasil e em seus supostos países de origem) e, reiterando a fidelidade desse estudo – levando em conta a rodagem média anual de 10.000 km, o que nos leva ao ano de 2014 para somar os 40.000 km que torna os carros imprestáveis no imaginário popular –  apontamos com exatidão o preço de cada modelo na época e agora, no final de 2018. Complementando o cálculo do investimento em cada modelo, somamos as despesas de sua manutenção básica como 4 trocas de óleo sintético + filtro (10.000 Km cada) – R$850,00; 1 troca de correia dentada e tensor (40.000 Km) – R$1.100,00; 1 troca das pastilhas de freios (25.000 Km) – R$1.200,00 e 1 troca de pneus (50.000 Km) – R$2.800,00. Um modelo pelo outro, a soma redonda é de R$6.000,00 a ser adicionada ao valor encontrado pela depreciação de cada modelo aqui exemplificado.

Vamos aos números?

SUV Compacto 2.0

Audi Q3 2.0 TFSI S-Tronic Quattro Ambiente

O modelo da montadora alemã sediada em Ingolstadt 2018 0/Km custa, na Europa, €33.990 ou R$148.300,00, e para chegar aos consumidores finais aqui no Brasil o mesmo modelo e versão custa R$41.690,00 a mais. Isso porque vem da China, Índia, Espanha e, mais recentemente, aqui mesmo do Brasil.

Se hoje, em 2018, esse carro custa R$189.990,00, em 2014 custava R$124.910,00, ou seja, a diferença de valor de revenda 0/Km atingiu, em 48 meses, a marca de R$64.990,00.

Agora, se o modelo produzido em 2014 for comprado hoje, seu preço de mercado é de R$92.720,00. Esse valor aponta para uma desvalorização de R$97.270,00, soma superior ao de seu próprio valor de mercado.

Resumo: ao final de um período de 4 anos, após rodar 40.000 km esse carro acumulou, adicionados os R$6.000,000 da manutenção básica, um prejuízo de R$103.027,00.  

SUV Médio 3.6

Jeep Grand Cherokee Limited 4WD

Carro abre-alas do modismo norte-americano de grandes SUVs, o modelo é comercializado nos Estados Unidos em média por U$35.000, ou R$133.780,00. Para vir de Detroit ao Brasil custa absurdos R$146.210,00. Para ser exato, é o mesmo preço de 2 Nissan Kicks S 1.6 0/Km.

Se o modelo 2018 0/Km custa aqui R$279.990,00, seu preço também 0/Km em 2014 era de R$195.560,00, o que leva a um acréscimo de R$84.300,00 neste período.

Porém, se o consumidor for comprar hoje o modelo produzido em 2014 pagará R$165.982,00, o que aponta para uma desvalorização de R$114.008,00. Em 48 meses.

Resumo: Com míseros 4 anos de idade, um carro que é quase um tanque de guerra, somadas as despesas de manutenção, atingiu os R$120.000,00 de desvalorização. São R$30.000,00 perdidos ao ano!

Sedan Compacto 2.0

Volkswagen Passat 2.0 TSI DSG

Demorou um pouco para os brasileiros entenderem que “esse” Passat não tinha absolutamente nada a ver com o “nosso” Passat; na Europa, o modelo 2018 custa €40.000 ou R$174.520,00 e, para chegar aqui vindo de diversos cantos do mapa, custa espantosos R$3.061,00.

Pois é, mas enquanto o modelo 2018 0/Km custa R$178.130,00, esse modelo em 2014 e também 0/Km custava R$ 110.523,00, somando R$67.607,00 a mais em seu preço em 4 anos.

Se o objetivo for a compra de um modelo idêntico produzido em 2014 o valor será de R$76.998,00, o que resulta em uma desvalorização de R$101.002,00.

Resumo: Em 48 meses e 40.000 km rodados, esse modelo, somando-se as despesas de manutenção, agregou R$107.002,00 de desvalorização.     

 

Sedan Médio 3.5

Mercedes-Benz CLS 350/450

Carro de respeito. Completo, potente, cobiçado, símbolo de status, o modelo da casa de Stuttgart custa, na Europa, €70.900 ou R$310.640,00. Para chegar aqui custa R$98.260,00. Uma diferença que daria para comprar um Hyundai iX35 0/Km a vista.

Enquanto o modelo 2018 0/Km custa nada módicos R$408.900,00, sua versão anterior fabricada em 2014 custava R$292.674,00, ou R$116.226,00 a menos do que agora.

Se o consumidor quer simbolizar seu status a bordo de um tremendo sedan de luxo como esse e não se importa de tê-lo com 4 anos de uso, pagará pelo carro R$160.000,00, valor este que revela os obscenos R$248.999,00 de desvalorização.

Resumo: Em míseros 4 anos e 40.000 Km cuidadosamente completados, somando-se os R$6.000,00 de manutenção, esse modelo redunda em uma estonteante desvalorização total de R$254.999,00, incompreensíveis R$63.750,00 anuais!!!

Coupé Esportivo 6.2

Chevrolet Camaro SS

Sonho de consumo dos amantes dos motores grandes e potentes em carrões lendários, o adorado modelo Chevrolet norte-americano custa U$ 37.250 ou R$ 142.380,00 nas Terras do Tio Sam. Só que para chegar aqui tem-se de acrescentar inacreditáveis R$167.620,00. Navio caro esse, não? Mais caro do que um BMW 320i Turbo 2018!

Bom, enquanto por aqui um modelo 2018 0/Km custa R$310.000,00, seu irmão mais velho custava R$181.500,00 quando nasceu em 2014. Fazendo as contas, chegamos a soma de R$128.500,00 de diferença, valor que sugere um inigualável incremento tecnológico nestes 4 curtos anos.

Se o cliente procurar um modelo e versão iguaizinhos, porém fabricado em 2014, com as diferenças características de modelos que só recebem alterações estéticas, desembolsará R$152.971,00, ou R$157.029,00 mais em conta do que o 2018 0/Km, poderá então comprar 2 modelos 2014 de uma vez e ainda sobrarão R$4.000,00! Isso sim é desvalorização!

Resumo: Um carro feito para rodar por pelo menos 500.000 Km sem dar dores de cabeça, desde que tratado corretamente, em 4 anos e menos de 10% de sua vida útil perde, somados os custos básicos de manutenção, atingiu o montante de R$163.029,00 de perdas.

É para entender esse mercado? O que justifica tamanha desvalorização – aqui citamos apenas 5 exemplos, vindos de países e continentes diferentes, mas essa pesquisa mostra que essa situação se estende a todos os importados -, o que explica tamanha taxação de importação? O mercado está aí, aberto, existente e funcionando, sabe-se lá como; Porque não parece razoável tampouco sensato alguém saber que vai perder um volume absurdo de dinheiro e, ainda assim, fazer negócio. Nada justifica, alguém consegue nos trazer uma luz que ilumine o caminho do conhecimento a esse respeito?

O que acaba sendo excelente negócio para negociantes de importados usados (tá bom, seminovos, vai…), uma vez que os preços estarão bem mais próximos do terreno, a desvalorização mais agressiva já ocorreu e o carro ainda está novo, porque é sério isso de carros desse porte rodarem tranquilos por mais de 400.000 km sem incomodarem. Tudo depende de como foram tratados, mas isso é fácil averiguar, basta solicitar o checklist do carro e tudo estará ali, contando sua história. E quanto ao fator “preços de revenda 0/Km”, alguém se habilita a explicar?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do CPN

 

 

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