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Histórias a bordo de um clássico – Se vestindo a prestação

Fotos: Divulgação

A indústria automobilística está em uma fase bastante interessante no Brasil, com foco em automóveis de grande volume de vendas e consideravelmente baixo preço pelos itens que oferecem Nissan, Toyota e Hyundai apostaram em produtos de baixo custo de produção, equipados com uma serie de itens que até alguns anos atrás eram luxo, como, Ar-Condicionado, Air-Bag duplo, Direção elétrica e outros itens que não podem faltar em um carro zero quilometro hoje em dia, estes são os famosos carros populares que se unem aos veteranos Volkswagen Gol e Fiat Palio para enfrentar um jogo duro nos próximos meses.

Essa categoria teve um nascimento interessante, através de um programa do governo federal que criou uma linha de credito junto a Caixa Econômica Federal e as principais montadoras que atuavam no pais, Willys, Simca, DKW e Volkswagen para disponibilizar um financiamento de 90% do valor dos automóveis populares.

Com o anuncio dessa linha de credito, as filas nas agencias da caixa se alongavam em quarteirões, atraindo um publico que antes não podiam adquirir um dos demais automóveis que as montadoras ofereciam, pois o financiamento era limitado e os valores fugiam do orçamento. Com as vantagens oferecidas pelo banco juntamente ao governo federal era possível um parcelamento em 48 vezes de acordo com o preço dos quatro modelos oferecidos. O programa beneficiava ambas as partes, o consumidor e as fabricas, que conseguiam escoar boa parte da produção em uma época em que o balanço comercial se fechava segundo as regras do regime militar, que estava há um ano no poder politico no pais.

A Willys foi a primeira a disponibilizar mil unidades da versão simplificada do Gordini, para criar a versão básica, e bota básica nisso, a montadora retirou 100 itens diminuindo cerca de 70 kilos em relação as demais versões do Gordini, resultando em um modelo realmente ‘pelado’.

O visual é bastante espartano, com para-choques pintados em tom de cinza, assim como os aros dos faróis além da ausência das lanternas traseiras, a  única luz é a da placa que faz as vezes de lanterna e aviso de freio, todas essas funções em uma só lanterna.

O interior refletia a primeira impressão, a simplificação era clara ao olhar para o teto e não ver o forro, sim, era pura lata, assim como os bancos, sem estofamento e muito menos isolamento acústico, alias, era arriscar sair com ele na chuva os ruídos com certeza iriam estressar os passageiros, assim como todo o tipo de ruído na lata, tudo em nome da economia.

O desempenho do Teimoso, nome dado pelo grande publicitário Mauro Salles, era semelhante ao do Gordini, a não ser pela ausênciacarburador sem afogador automático mas a redução de peso deu um animo ao motor de 40 cavalos, deixando-o ainda mais gostoso de guiar, pela leve direção e o cambio de quatro marchas.

Já a Volkswagen oferecia a versão ‘ Pé de Boi ‘ do Sedan, todos os itens que o garantiam algum luxo foram retirados, nada de frisos, retrovisores ou piscas na parte superior dos para-lamas dianteiros como na versão tradicional, há economia era tanta que nem emblema VW no capô dianteiro foi incorporado. Todos os cromados que cercavam o Sedan, como aros dos faróis, calotas e os para-choques eram pintados de branco e nem pense em tubos superiores ou as garras no para-choque, tudo foi eliminado para garantir o preço baixo.

O interior era um reflexo, somente no necessário foi mantido, grade do alto-falante do rádio, tampa do porta-luvas, alça de apoio, cinzeiro e marcador de combustível não foram poupados, para medir a quantidade de combustível que ainda restava no tanque era usada uma vareta que era imersa no tanque, como nos modelos da década de 1950.

Se o inverno fosse rígido era melhor estar bem agasalhado, porque o aquecedor foi retirado assim como a  iluminação internar, porta-objetos na porta, apoio de braço, para-sol e borracha no acelerador. Um pouco mais ‘luxuoso’ do que o Teimoso da Willys, a forração dos bancos era superior ao da concorrência mesmo em essência sendo mais simples do que o Sedan e o encosto não oferecia regulagem. Os vidros traseiros eram fixos, e o macaco vinha solto no porta malas, onde ficavam as ferramentas, que permaneceram apesar de simplificadas dentro de um quite essencial, entre as cores, só havia duas opções cinza claro e azul pastel.

Na campanha publicitária, a Volkswagen frisava o uso do Pé de Boi para o campo, colocando em uma espécie de tirinhas a utilidade em situações encontradas no dia a dia das fazendas e ressaltando o conforto do Volkswagen Sedan e a economia de 13km/l, com troca de óleo a cada 2.500 km tudo para convencer um publico que antes nunca havia tido acesso ao automóvel, mas agora poderia adquirir um e que fosse um Volkswagen.

É bastante comovente, ouvir algumas pessoas que conheço contar suas experiências com os automóveis deste programa do governo, através dele, uma parcela da população que não tinha acesso a um automóvel, ou possuía Ford e Chevrolet das décadas de 1940 ou 1950 puderam entrar em um carro de projeto moderno, e com aquele cheirinho de zero quilômetro que só um modelo novinho tem.

A DKW não ficou para trás, logo tratou de apresentar a Pracinha, que a algum tempo atrás recebia o nome de Caiçara que seguia a risca a linha já usada pelos outros dois modelos, o aspecto geral do Pracinha agradava e se mostrava simpática atraindo olhares nas ruas na década de 60. A dianteira segue a receita dos populares com o para choque simplificado e pintados de branco, interessante era reparar as peculiaridades, como no capo que não tem mola e sim uma vareta de fixação, o que traz maiores inconvenientes para as inspeções de rotina no cofre do motor, o mesmo da Vemaguet, Belcar e Candango o propulsor três cilindros, dois tempos de 50 hp ainda sem o sistema Lubrimat. Mas a fabricante pecou em alguns detalhes, tudo em nome do custo.

Os bancos dianteiros são individuais e reclináveis, revestidos com plástico. O assoalho do compartilhamento traseiro, não tem qualquer forração.  Um dos pontos fortes para reduzir os custos, foi adotar a porta- traseira única, sem painel, assoalho de madeira comum, apenas duas ferramentas e um só farol para iluminação da placa com função de lanterna ao mesmo tempo.

A Pracinha trazia todas as características mecânicas alinhadas com o restante da linha oferecida na época, com a elogiada concepção, construção e desempenho dos veículos da linha DKW no geral. Um dos pontos positivos do modelo, é sua agilidade dentro das grandes cidades, com a leveza e agilidade, arranca rápido nas saídas  e sua estabilidade é elogiável.

Mas a precariedade na vedação é um problema não só nela, mas nos outros modelos também pois falta isolamento acústico e térmico. Mas se você quisesse um sedan de luxo, com características estéticas que só podiam ser vistas nos modelos importados incluindo rabo de peixe e um motor oito cilindros em v havia o Profissional, versão apresentada em 1964 com o sobrenome de Alvorada.

Com um orçamento curtíssimo, tudo o que o Chambord ostentava foi por água a baixo o acabamento era um dos mais carentes do grupo, as portas vinham revestidas com Eucatex aquela chapa dura à base de fibras de eucalipto usada no interior dos ônibus, além de perder ascalotas, cromados externos, para-sol do passageiro e até a ventilação interna.

Foi interessante observar o movimento das fabricantes, praticamente uma corrida para atender ao programa do governo em tirar tudo o que fosse dispensável para tornar seus produtos baratos, mesmo que fosse necessário abrir mão do isolamento acústico, para-choques cromados e forração interna.

Os quatro modelos eram verdadeiramente espartanos, em um tempo onde direção hidráulica, ar-condicionado, bancos reclináveis e bipartidos não eram pré requisitos para adquirirmos um automóvel zero quilometro, tendo a possibilidade de um novinho na garagem era o que nos fazia feliz.

Contatos do autor:  Júnior Almeida – [email protected] – www.esporteautomotor.blogspot.com

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