
Por Marcus Lauria (fotos divulgação, internet e arquivo pessoal)
Minha história com a Fiat
A marca Fiat entrou na minha vida muito cedo, quando eu tinha uns oito ou dez anos. Foi justamente nessa época que meus pais se separaram. Morávamos no Rio de Janeiro, onde a vida sempre foi bastante agitada. Depois da separação, meu pai alugou um apartamento para minha mãe e comprou um carro para que ela pudesse se locomover pela cidade e levar meu irmão mais velho e eu ao colégio. Naquela época, minha mãe não trabalhava.
Conto essa história porque o primeiro carro que ela teve foi justamente um Fiat 147 1980, amarelo. Nunca me esqueço do dia em que meu pai chegou com o carro e chamou a gente para vê-lo na garagem. Lá estava aquele “caixotinho” amarelo, chamando a atenção na vaga.

Eu já gostava muito de carros naquela época. Meu pai também sempre foi apaixonado por automóveis e teve grande influência sobre mim. Na garagem da família passaram um Jeep original do Exército, Alfa Romeo 2300, além de várias Caravans e Opalas.
Tenho muitas lembranças vividas com aquele 147 amarelo: os grandes congestionamentos do Rio, as enchentes e até alguns momentos em que o carro nos deixou na mão pelas ruas da cidade, por um problema mecânico simples (coisas de falta de revisão). Apesar das dificuldades, ele acabou fazendo parte da minha infância e, de certa forma, da minha relação com a Fiat.

Outros Fiats que marcaram minha infância
Outro modelo da marca que tive a oportunidade de conhecer foi um Fiat 147 Spazio 1982, pertencente ao meu tio. Ele comprou o carro zero-quilômetro e costumava utilizá-lo em Itaipava, onde a família tinha uma casa para passar os finais de semana.
Eu achava o Spazio muito moderno para a época. Lembro especialmente do espaço interno, do bom aproveitamento da cabine e daquele painel que chamava atenção. Para os padrões daquele período, também considerava o acabamento bastante interessante.
Já um pouco mais velho, acompanhei de perto a relação do meu tio com os automóveis. Ele costumava trocar de carro a cada dois anos e teve alguns Fiats que conheci melhor e até dirigi, como uma Strada Adventure 2004 e um Stilo Season 2006. Ele também teve um Uno 1.3 de duas portas caracterizado como o esportivo 1.6R, na cor preta.

Minha mãe, com o passar dos anos, também teve dois Fiat Palio da primeira geração: um branco, versão ED, de 1998, e outro vinho, versão EDX, comprado zero-quilômetro em 2000. Ambos tinham motor 1.0.
Eu nunca tive um Fiat, mas sempre admirei alguns modelos da marca, como o Uno 1.6R, Tempra Turbo, Marea Weekend Turbo, Fiat Coupé, Palio Weekend Sport e Stilo Schumacher.

Do gosto por carros ao jornalismo automotivo
Hoje, aos 52 anos, posso dizer que consegui trabalhar com aquilo que sempre quis. Gosto de carros desde a infância e continuo movido por essa cultura do automóvel e do motor.
Minha trajetória no jornalismo automotivo começou em 2005, no antigo site iCarros, que na época tinha sede no Rio de Janeiro. Desde então, acompanhei de perto as transformações do setor e mantenho o CarPoint News, ao lado da Revista Torque, dando continuidade a um trabalho voltado à informação automotiva.

Nesse período, tive a oportunidade de testar mais de 650 carros, muitos deles da Fiat, hoje parte do grupo Stellantis. É uma experiência que me permite acompanhar não apenas a evolução dos produtos, mas também as mudanças na indústria e no comportamento do consumidor.
Minha preparação para chegar até aqui começou ainda na faculdade de Jornalismo, na FACHA. Para pagar os estudos, trabalhei como corretor de imóveis. Foi um caminho construído com trabalho e persistência.
Mesmo diante das mudanças provocadas pela chegada dos influenciadores e criadores de conteúdo, continuo atuando no jornalismo automotivo e mantendo meu espaço entre os leitores que acompanham o universo dos carros e das motos.
Fiat 147: o começo de uma nova história no Brasil
Para homenagear os 50 anos da Fiat no Brasil, fiz uma pesquisa sobre a história do Fiat 147, modelo que marcou o início da trajetória da fabricante italiana no país.
O 147 foi o primeiro carro produzido pela Fiat do Brasil e inaugurou a fábrica de Betim, em Minas Gerais, em 1976. Produzido até 1986, o compacto ajudou a transformar o mercado brasileiro ao desafiar a hegemonia das fabricantes instaladas no ABC Paulista e enfrentar diretamente modelos como o Volkswagen Fusca.
O projeto tinha como base o Fiat 127 italiano, mas os testes realizados no Brasil desde 1973 mostraram que o modelo europeu precisava de adaptações para enfrentar as condições das estradas brasileiras. A engenharia da Fiat modificou componentes importantes, incluindo suspensão, câmbio e estrutura, criando um carro mais adequado à realidade nacional.

O conceito do 147 era simples e eficiente: “pequeno por fora e grande por dentro”. Com apenas 3,62 metros de comprimento, o compacto utilizava motor transversal dianteiro, uma solução que ajudava a liberar espaço para até cinco ocupantes.
Outro detalhe interessante estava no posicionamento do estepe, instalado junto ao compartimento do motor. Com isso, o porta-malas ficava totalmente livre e oferecia capacidade de 352 litros, um número expressivo para um carro daquele porte.
O pioneirismo do etanol
O Fiat 147 também entrou para a história da indústria automobilística mundial em 1979, quando se tornou o primeiro automóvel produzido em série no mundo equipado para funcionar com etanol.
A tecnologia surgiu em um momento de crise internacional do petróleo e ganhou força no Brasil com o Proálcool, programa criado pelo governo para estimular o uso de combustíveis derivados da cana-de-açúcar.
O modelo recebeu o apelido de “Cachacinha”, uma referência bem-humorada ao cheiro característico que o escapamento podia apresentar durante o funcionamento com álcool.
Uma família de derivados
O Fiat 147 também se destacou pela quantidade de versões e derivados desenvolvidos a partir de sua plataforma. A família cresceu rapidamente e passou a atender diferentes necessidades do mercado brasileiro.
Em 1978 surgiu a Fiat 147 Picape, considerada a primeira picape compacta brasileira derivada diretamente de um automóvel de passeio. Em 1980 chegou a Fiorino, versão furgão voltada ao transporte urbano de cargas. No mesmo período, a Panorama apareceu como opção perua, destacando-se pelo espaço interno.
Em 1983 foi lançada a Fiat Oggi, versão sedã de três volumes que oferecia um porta-malas generoso. Entre as configurações mais esportivas e sofisticadas estavam o 147 Rally, equipado com motor 1.3 de 72 cv, e o GLS.
Ao longo da produção, o desenho do modelo também passou por mudanças. Entre elas estavam as linhas Europa, introduzidas em 1980, e o Spazio, apresentado em 1982.
A produção do 147 no Brasil chegou ao fim em 1986, abrindo espaço para a chegada do Fiat Uno. Em aproximadamente dez anos, mais de 700 mil unidades do 147 e do Spazio foram produzidas no país, consolidando a presença da Fiat na indústria automobilística brasileira.
50 anos de Fiat no Brasil
A Fiat completou 50 anos de presença no Brasil com uma trajetória marcada por mudanças importantes no mercado, novos conceitos e modelos que se tornaram parte da história do automóvel no país.
Tudo começou em 9 de julho de 1976, com a inauguração da fábrica de Betim, em Minas Gerais. A chegada da Fiat rompeu a concentração da indústria automobilística no ABC Paulista e trouxe novos conceitos de engenharia e produção ao mercado brasileiro.
Nos anos 1970, o Fiat 147 foi o responsável por iniciar essa história, trazendo soluções como o motor transversal e bom aproveitamento do espaço interno. Em 1979, o modelo voltou a fazer história com a tecnologia de etanol produzida em série.
Na década de 1980, o grande destaque foi o Fiat Uno, lançado em 1984 com a proposta de ser pequeno por fora e espaçoso por dentro. O modelo rapidamente ganhou espaço no mercado e deu origem a derivados como o sedã Prêmio, a perua Elba e a picape Fiorino.
Os anos 1990 foram marcados pela popularização dos motores 1.0 e pela chegada de modelos que ampliaram a presença da Fiat em diferentes segmentos. O Uno Mille tornou-se um dos principais símbolos dos carros populares, enquanto o Tempra consolidou a marca entre os sedãs médios. Em 1994, o Uno Turbo chegou ao mercado como o primeiro automóvel nacional produzido em série com motor turboalimentado.
Em 1996, a Fiat lançou o Palio, responsável por modernizar sua linha de compactos. Poucos anos depois, em 1999, surgiu a Strada, que se tornaria uma das principais referências do segmento de picapes compactas no Brasil.
Nos anos 2000 e 2010, a Fiat consolidou sua liderança no mercado brasileiro. A marca também explorou novos nichos com a linha Adventure e apresentou tecnologias e conceitos diferentes, como o teto solar Sky Window no Stilo.
Em 2015, a inauguração da fábrica de Goiana, em Pernambuco, ampliou a capacidade de produção da empresa no país e fortaleceu a estratégia da Fiat para novos segmentos. Em 2016, a Toro criou uma nova proposta entre as picapes compactas e médias, enquanto o Argo chegou em 2017 para ocupar uma posição importante entre os compactos.
A era Stellantis e a eletrificação
A década de 2020 marcou uma nova fase para a Fiat. Integrada ao grupo Stellantis, a marca renovou sua identidade visual e passou a explorar com mais força segmentos que ganharam espaço no mercado brasileiro.
Os SUVs passaram a ter papel importante nessa estratégia, com o lançamento do Pulse e, posteriormente, do Fastback, ampliando a presença da Fiat em uma categoria até então pouco explorada pela fabricante.
Ao mesmo tempo, a marca avançou na eletrificação com a tecnologia Bio-Hybrid e sistemas híbridos leves, buscando combinar motores a combustão com soluções elétricas de menor complexidade.
Depois de cinco décadas, a história da Fiat no Brasil se confunde com a própria evolução do mercado automobilístico nacional. E, para mim, essa história tem um significado ainda mais pessoal. Começou na infância, com aquele pequeno Fiat 147 amarelo estacionado na garagem de casa, e continua até hoje, agora do outro lado, acompanhando, testando e contando a história dos carros para quem, assim como eu, também é apaixonado por automóveis.










