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Autos Giros Especial: O futuro não é mais como era antigamente

Estudo da PwC aponta que evolução da mobilidade nos próximos anos será mudança mais rápida e profunda do que se esperava. Impacto trará grandes transformações ao setor automotivo global e a sociedade contemporânea como um todo

Salve galera, estamos de volta!

Depois de um período de férias prolongadas, a coluna Autos Giros está de volta para a “temporada 2019”. E, neste retorno, trazemos uma matéria especial sobre o futuro da mobilidade, com uma entrevista exclusiva com o sócio da PwC, Marcelo Cioffi. Confira!

O mundo automotivo está passando por um momento de profundas modificações. Há, de forma cada vez mais clara, uma grande mudança de paradigma se aproximando. E não se trata de uma nova tecnologia, mas de um cenário completamente novo, onde o automóvel deixa de ser uma propriedade para se tornar “apenas” um veículo para mobilidade.

O Brasil ainda está longe dos carros autônomos – os próprios elétricos, já bastante comuns em países desenvolvidos, mal está chegando por aqui em 2019 – mas esta “onda” já começa a chegar em lugares como os Estados Unidos, a China ou mesmo a alguns mercados europeus.

Por lá, carros híbridos e elétricos já são uma realidade. Os autônomos, por sua vez, se não estão espalhados pelas ruas, já estão virando a chave da ignição – sozinhos e sem chave, aliás. O ponto é que, mais do que possibilitar que carros “dirijam sozinhos” e nos levem aonde quisermos, a mobilidade autônoma tende a significar uma mudança estrutural na forma como entendemos e vivemos a mobilidade como um todo.

Um estudo realizado pela PwC chamado “Five trends transforming the Automotive Industry” (Cinco Tendências da Indústria Automotiva, em tradução livre) identificou cinco tendências para a mobilidade resumidas no acrônimo “eascy”: electrified (eletrificado), autonomous (autônomo), shared (compartilhado), connected (conectado) e yearly updated (atualizado anualmente).

Segundo o documento, a evolução do compartilhamento de veículos será combinado com o avanço dos carros elétricos e autônomos. Para 2030, por exemplo, 55% dos veículos produzidos no continente europeu devem ser elétricos.

E o  mesmo estudo mostra que, até o mesmo ano de 2030, um em cada três quilômetros de tráfego serão rodados em veículos compartilhados em todo o mundo. Ao mesmo tempo, e ao contrário do que possa parecer – na ideia que se tem atualmente – o tráfego de veículos também promete crescer.

“O estudo nos mostra que o aumento do tráfego se dará não apenas com o crescimento da população. Ele lembra que os veículos autônomos compartilhados poderão ser usados por pessoas que hoje não têm acesso – seja por questões de mobilidade física ou mesmo financeiras – ou não podem conduzir um veículo”, explica Marcelo Cioffi, sócio da PwC Brasil.

Menos carros, mais tráfego 

Legenda: Marcelo Cioffi, sócio da PwC

Neste cenário, no qual o automóvel deixa de ser um produto de propriedade individual (ou familiar) e passa a ser uma plataforma de serviços, a tendência, segundo o estudo, é que a frota caia drasticamente. Na Europa, a expectativa é uma queda dos 280 milhões atuais para 200 milhões de unidades e, nos EUA, de 270 para 212 milhões.

Além da questão tecnológica, ainda há um outro obstáculo para que este cenário se torne realidade: a questão jurídica, de responsabilização, por exemplo, sobre acidentes com carros autônomos. “Faz parte do processo, mas é no seu decorrer, e principalmente depois, que o conceito geral de mobilidade mudará profundamente’, explica Marcelo.

O aumento populacional – unido com a possibilidade de não-condutores poderem utilizar estes novos serviços – deverá aumentar as demandas por mobilidade em termos exponenciais e, por isso, o tráfego deverá aumentar. E junto com esta mudança demográfica virão novas gerações, cada vez mais acostumadas tecnicamente com os novos paradigmas, e que se tornarão impulsionador no desenvolvimento de soluções de mobilidade.

“Isto trará uma forte mudança no perfil da mobilidade. Forçará uma redução da frota rodante pois as pessoas deixarão de ter um ou dois carros, e passarão a utilizar seus veículos esporadicamente”, acredita o executivo.

“O melhor é comprar carro por hectare

e vender por metro quadrado”

 

Esta frase indica o futuro do negócio automóvel para quem vende. De acordo com Marcelo Cioffi, a tendência é que as megacorporações fabricantes de veículos atuais se tornem “muito mais provedores de serviços de mobilidade do que de equipamentos de mobilidade. Alguma já estão começando a pensar o seu negócio como serviço, e não mais como produto. Exatamente como ocorreu na evolução da telefonia, do fixo para os smartphones”.

Ao mesmo tempo, Marcelo destaca que estes novos mercados e possibilidades de serviço não precisam, necessariamente, serem providos apenas por montadoras: “Isto criará um mercado totalmente novo e inexplorado. Hoje pensamos em entregas sem intervenção humana, táxis que se dirigem sozinhos e algumas outras coisas. É um engano, mas um engano compreensível. Este cenário traz possibilidades que nós não temos como prever pois nunca tivemos estas facilidades. A dúvida, contudo, é quem vai ser o provedor de hardware (o veículo), quem vai ser o provedor de software e quem vai ser o operador de tudo isto”, destaca.

Atualmente existem empresas de tecnologia investindo em sistemas para veículos autônomos, que seriam a parte de software, e as montadoras, que fariam o hardware (e “embarcam” o software de seus fornecedores).

A pergunta é: quem vai – ou vão – operar o sistema? “Isto é algo que ainda vai ser descoberto ou até mesmo tentado. É um mercado inexistente. É como perguntar, nos anos 1950, quem operaria a internet”, ilustra.

É possível, apesar de improvável, que as próprias montadoras façam os três papéis no futuro, mas é improvável. Isto porque, apesar de haver joint-ventures entre as concorrentes para desenvolver tecnologias autônomas, não existe um caminho que todas estão percorrendo. Elas estão indo por caminhos diferentes para responder perguntas parecidas (ou, algumas vezes, muito diferentes). O resultado provavelmente trará inúmeras respostas que, juntas, ajudarão a formar esta “mobilidade do futuro”.

O meu carro não é meu

Hoje é fácil definir, produzir e vender um automóvel. Afinal, além de vivermos em um mundo completamente dominado pelos veículos automotores como meio de locomoção e mobilidade, ele é claramente um produto. Algo que se adquire, se guarda e se usa.

Neste cenário, porém, ele perde sua característica de ser algo “próprio” e passa a ser compartilhado. O carro deixa de ser algo “da família” e passa a ser algo se paga especificamente quando for utilizar, como um ônibus, um avião ou, mais modernamente, a Netflix, o Spotify e o Airbnb.

E esta transformação em serviço certamente vai impulsionar o desenvolvimento de tecnologias nesta “plataforma de mobilidade autônoma”. As empresas operadoras podem incluir facilidades como wifi embarcado, TV a cabo, telefonia, serviço de entregas e muitas outras coisas que ainda não imaginamos por que não temos a tecnologia em mãos. “Digamos que, num primeiro momento, teremos o smartphone mas ainda não teremos seus aplicativos e nem a ideia correta do seu potencial de inovação”, exemplifica Marcelo.

Além disso, ao se tornar um serviço com tempo determinado, o negócio também traz um potencial de geração de dados sobre o cliente/consumidor, criando uma possibilidade de coletar informações e prover produtos e serviços. “Os veículos poderão oferecer, inclusive, coisas que hoje já existem, como descontos no shopping, reserva de restaurantes, tabela de preços de combustíveis, hotéis, passeios, etc.”, explica o executivo.

O “fim” da internet das coisas

 

Um termo cada vez mais comum hoje em dia (e já bastante corriqueiro no mercado de tecnologia) é “internet das coisas”. Isto porque, com pouco menos de 30 anos de internet comercial no mundo, e apesar de ela estar “em todos os lugares” neste início de século XXI, ela está basicamente em computadores e smartphones.

Apenas nos últimos anos ela começou a sair de seus lugares “originais” e passou a estar presente em relógios, eletrodomésticos, televisões, totens de auto serviço. Isto impressiona quem ainda vem de um tempo sem qualquer conectividade, mas se tornará mais comum conforme a tecnologia evoluir e novas gerações surgirem já “absorvidas” por este novo cenário.

Segundo o estudo da PwC, em 2030 as crianças – já emergidas neste mundo multimodal – poderão não entender, por exemplo, a necessidade de se ter um automóvel ou como se utilizava ou para que serviam as “coisas” sem internet. Essa nova “lógica” acabará com o termo Internet das Coisas da mesma forma que hoje ninguém diz que o seu computador vem com “kit multimídia”.

O Brasil é o país do futuro?

 

Tanta tecnologia e inovação traz uma pergunta: e o Brasil?

A pesquisa da PwC foi realizada focada em mercados de primeiro mundo como Europa, Estados Unidos e China. Será que tudo isso vai demorar para chegar às nossas ruas?

“O mundo é muito conectado e tudo chega. Acreditar que o Brasil vai estar fora disso é olhar 20 anos atrás e achar que hoje você não seria um dos países mais conectados do mundo. Hoje os argumentos são tipo “ah mas as tecnologias não chegam”, o que é uma ideia que não se comprova mais na realidade. E sobre a infraestrutura, pode haver um engano de entendimento aqui”, explica Marcelo Cioffi.

“Estamos falando aqui de adoção de tecnologia. A redução de custo é muito rápida. Vai chegar, pode atrasar um pouquinho por que lá isto já está acontecendo, embrionariamente, mas chegará”, destaca.

“É possível que o Brasil não participe da primeira onda, mas entre na segunda onda e siga “sincronizado” a partir daí.

Compras sem sair do escritório

“Tudo o que falamos até aqui é sobre o impacto no usuário final, mas o impacto da revolução digital com certeza vai além”. A afirmação de Marcelo Cioffi lembra que o futuro da mobilidade passa também pelo uso cada vez maior, por exemplo, da impressão 3D dentro do ciclo de produção do setor automotivo global (manutenção, pós-venda, etc).

Um exemplo é a parceria que a Amazon fez com montadoras globais para ampliar o uso do sistema Amazon Key também para os automóveis. Originalmente utilizado para controlar a residência (luzes, acesso, eletrodomésticos) ela agora permite, por exemplo, compras no site da Amazon com entrega direta no porta-malas do cliente.

Assim, é possível escolher algo de manhã no site da Amazon e no fim do dia pegar o carro com já com as novas compras. Com a Amazon Key o funcionário consegue abrir apenas o porta-malas, deixar os produtos e avisar o cliente sobre a entrega na hora. No caso do serviço residencial, o cliente recebe no celular a imagem da pessoa entregando. Se tiver que instalar, a pessoa instala, e em breve vai deixar dentro da sua geladeira.

“E este é apenas um primeiro momento. Em um segundo momento, a ideia é vender espaço no porta-malas para fazer frete para terceiros. O cliente disponibiliza o espaço, os funcionários da Amazon fazem a entrega e a retirada e o cliente seria remunerado. Isto ainda não é possível, mas é uma possibilidade para mostrar como a tecnologia já está abrindo as portas de um mundo totalmente novo”, explica Marcelo.

Qual o “custo” da mobilidade autônoma?

 Veículos autônomos trazem muitas facilidades, mas precisam de uma certa infraestrutura. Certamente não tão pesada quanto a de um “trem bala”, mas sensores, radares, computadores para “trabalhar” uma grande quantidade de dados sim. Além disso, cidades vão ter que se preparar e regulamentar o que este novo cenário trará logo ali adiante.

“Uma coisa é comprar o carro, outra é alugar e “comprar” uma fração disso. É outro modelo de negócio”, ressalta Cioffi. “E também é válida a discussão do impacto de tudo isso para os modais como ônibus e metrô. Acredito que será positiva pois as pessoas vão deixar de ter carro e usar o metrô nesse conceito modal”, avalia.

Com isso, a sociedade dos carros compartilhados mudará não apenas o modelo de negócio das montadoras e dos futuros operadores deste novo cenário, mas também outras indústrias atuais como as fabricantes de autopeças, seguradoras, financiadoras, estacionamentos, entre outras.

“É importante entender, por exemplo que o que chamamos de Uber, por exemplo, não é a empresa, mas o serviço. Da mesma forma, Airbnb e Netflix, por exemplo. As empresas podem sumir, mas a tecnologia não. Ao contrário, elas continuarão evoluindo e assim como há poucos anos não se imaginava estes modelos de negócio “por aplicativo” e sem necessidade de estrutura física, estoque e escritórios, não temos como prever como será no futuro”.

A PwC – consultoria global, presente em mais de 150 países. Consultoria empresarial, tributária e auditoria. Dentro tem estruturas focadas em indústrias. A automotiva é um dos pilares, e nesse grupo temos presença em vários países para estes estudos.

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