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Contos – O País das Maravilhas

Fotos: Divulgação

Acordei feliz! Encontrar meus amigos motociclistas em uma manhã ensolarada de domingo no ‘point’ da cidade é sensacional. Exibir minha Fat Boy Special e compartilhar experiências com os colegas haleyros é algo fundamental na minha vida. É difícil expressar a sensação que os encontros de motociclistas causam em mim. Desconheço um movimento popular que valoriza com tamanha propriedade o senso de humanidade. Quando nos encontramos, a união é contagiante, os nossos ideais se materializam nos olhares daqueles que passam por perto, seja a pé, ou de carro, as pessoas desaceleram por um instante o pensamento, seja este qual for.

E neste domingo, em especial, o próprio destino me intuía que algo iria acontecer. Posso dizer, sem medo de errar, que quando liguei a minha moto e dei partida, o ronco do motor  imponente da minha belíssima máquina de duas rodas, sinalizava o início de uma nova fase na minha vida.

Fui em direção a praça central de minha cidade, como faço todos os domingos, sempre chego me sentindo o dono do pedaço, porque sei que todos olham minha máquina, desejando pilotar. Minha Fat toda preta, com acabamento preto fosco cobre, chama a atenção por onde passa.

Para chegar até a praça, passo todo domingo, em uma das ruas mais movimentas da minha cidade, e propositalmente, lógico! Quem tem uma Fat, compreende essa necessidade de instigar o desejo de liberdade entre as pessoas e aguçar o consumo dos prazeres proporcionados pela potência do veículo.

Neste domingo, quando passei desfilando minha Fat, parei em um sinal, do meu lado esquerdo uma Dyna Super Glide Custom preta, toda cromada, com uma morena de tirar o fôlego guiando. Meu irmão! Pela primeira vez na vida, uma Harley não era mais suficiente, eu precisava de duas.

Naquele momento eu passei a ser o telespectador, tudo o que eu queria instigar entre as pessoas que passavam por mim, quem sentia era eu. Eu perdi o fôlego, a Dyna e a morena passaram a ser meu objetivo de vida, meu foco. Por um lapso de tempo, o tempo parou, e as meninas perceberam.

O sinal ficou verde, elas arrancaram e nós ficamos.

É… Eu e minha Fat ficamos parados, em estado de choque, afinal, eu tinha acabado de contemplar a oitava maravilha do mundo.

Ok! Voltei a realidade, as buzinas dos carros que estavam atrás de mim me puxaram feito imã para meu corpo, que sei lá eu, ficou estacionado em algum lugar perfeito no espaço astral daquele domingo ensolarado. Dei partida na Fat e segui meu destino, segui acreditando que encontraria a Dyna e a morena no encontro de motos.

Percorri mais 15km até o local do encontro, eram mais de duas mil motos paradas e um festival de gente feliz contando as inúmeras aventuras e prazeres que um motociclista pode usufruir. Mas eu estava alucinado, procurando a Dyna e sua dona. Meus companheiros gritavam meu nome, eu ouvia de longe…Mesmo estando perto, eu não estava ali, tentava voltar de alguma forma no lugar perfeito do espaço astral que me levou a conhecer a oitava maravilha do mundo, eu era sugado pela insanidade do que havia contemplado no sinal vermelho da rua movimentada de minha cidade.

Montado na minha Fat, fui a guiando lentamente entre os demais motociclistas, fitando meus olhos em cada moto, em cada companheiro e companheira. Fiquei umas duas horas completamente envolvido com a situação, perguntava se alguém havia visto uma Dyna, cromada, sendo pilotada por uma morena com cabelos lisos e compridos. Ninguém me passou informações que me levavam a encontrar a oitava maravilha do mundo.

O dia passou, o encontro de motociclistas estava no fim e eu, pela primeira vez na vida, voltei decepcionado para minha casa.

Fui dormir, certo de que acordaria na segunda disposto a comprar uma Dyna. Eu não queria perder, eu não queria me sentir impotente. E na minha mente, para não me sentir por baixo diante do que me acontecerá naquele domingo, eu precisava de uma Dyna, ao lado da minha Fat na garagem. Era o mínimo que eu podia fazer.

Assim foi… Comprei minha Dyna, desfilava com ela pela cidade, chamava a atenção por onde passava, mas no fundo, eu procurava a Morena e sua Dyna. Eu procurava, perguntava e ninguém me passava informações que me levassem ao paradeiro das meninas.

O tempo passou, o sonho permaneceu.

Um dia, sem mais nem menos a campainha da minha casa tocou, fui abrir a porta, era a morena, dona da Dyna. Flertei meus olhos nos dela e demorei uns quinze segundos para perguntar o que ela desejava. Ela percebeu… E ao perceber, soltou o mais lindo sorriso que eu havia contemplado em toda minha vida. Após o silêncio… Eu perguntei a ela em que poderia ser útil. Ela respondeu dizendo que morava na cidade vizinha e que foi assaltada quando saia do hospital em que trabalhava, perto de minha casa. Levaram sua bolsa, com documentos, dinheiro e a chave de sua moto, que estava estacionada perto ao hospital. Naquele momento, eu voltei a si, porque até então, minha mente estava voltada para o sinal vermelho, daquele domingo ensolarado…

Ofereci ajuda a Alice. Sim! A mulher dos cabelos longos e negros se chama Alice.

Prontamente a conduzi até a garagem de minha residência, os olhos de Alice brilhavam ao ver minha Fat e minha Dyna. Ela não disse nada! Eu, propositalmente peguei as chaves da Dyna e conduzi Alice na garupa até o posto policial mais próximo. Durante o percurso…Ah! Durante o percurso eu conduzia a oitava maravilha do mundo. Alice não sabe e talvez nunca saberá. Mas naquele dia, ela tornou real o PAÍS DAS MARAVILHAS.

Se eu e ela nascemos um para o outro? Não sei ainda! Quem sabe um dia eu consiga responder! O máximo que posso dizer é que sem minha Fat e sem minha Dyna não teria gosto contar esse conto.

Fim ou reticências? Ainda não sei não…

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