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Contos – Era só o começo

Foto: Divulgação

Pouco mais de dezoito horas, pôr do sol maravilhoso surgia e eu podia contemplar essa beleza natural da janela de minha casa. Após um dia ensolarado, porém bucólico, começava a se pôr o que brilhava e aquecia a terra.

Meu telefone neste exato momento tocou, meu coração previa algo, não saberia descrever o sentimento, porém de alguma forma senti que alguma coisa estava acontecendo e que eu deveria estar exatamente ali, de frente pra janela, contemplado aquele pôr do sol incrível e pronto a atender o que deveria ser apenas mais uma ligação.

A sensibilidade é um tanto quanto engraçada, consigo descrever esse “teaser”, dando como exemplo o instinto animal. Os animais, de um modo geral, através do instinto, clamam quando há por vir um fenômeno na terra. Podemos visualizar isto, quando recebemos noticia de que um Tsunami se aproxima, é incrível a reação dos animais, logo no inicio do evento natural, são capazes de sinalizar que algo irá acontecer. Os animais se movimentam, deslocando-se em multidões a procura de segurança e abrigo. Eles são os precursores do que esta por vir e isso é fantástico. A vida é um mistério. O instinto, um impulso infalível.

Bem, se com os animais irracionais é assim, imagina conosco, seres racionais e devotos aos prazeres da vida. Somos capazes de sentir algo que está por vir, a quilômetros de distância e com maior intensidade.

Então, atendi o telefone… Era meu amigo Claudio, amigo de infância. Naquele momento Claudio me cumprimentou com a voz roca e triste, era nítido que algo o abalara. Ele não “mediu” palavras, foi logo ao assunto, me perguntou se ele poderia ir até a minha casa e trocar uma ideia, ele se sentia perdido.  Prontamente o interrompi e disse que o esperava em minha residência dentro de vinte minutos.

Passaram-se os vinte minutos e a companhia tocou, atendi, era Claudio. Fomos até a sala, sua aparência física era deplorável, seu olhar era igual de um peixe morto. Confesso que não soube como reagir naquele momento, apenas o deixei a vontade para expor o que estava acontecendo.

Meu amigo falava comigo sem parar, por volta de trinta minutos, começou com o dia de seu casamento até o fatídico dia em que descobriu a traição de sua esposa. Foram sete anos de casado, sendo que os dois últimos, ele já não era o único homem na relação. Meu irmão…Já foi traído? Tem nada mais doloroso para um homem, que um chifre decorando a cabeça.

Confesso a vocês que me faltou palavras, a única coisa que eu podia fazer naquele momento, era demonstrar atenção, e assim foi… Claudio falava, falava, falava. Homem é assim, não somos de pedir conselhos, somos práticos nesse sentido, precisamos que nos ouçam e ponto.  Eu acho que fingi bem a minha paciência. Sim! Fingi! Minha vibe naquele momento era outra. Apesar de tê-lo atendido prontamente, ele chegara à minha casa, exatamente na hora que costumo sair e rodar com a minha Harley pela cidade.

Mas tudo bem…Permaneci assentado no confortável sofá de minha casa, ouvindo meu amigo lamentar o fim de seu casamento.

Cara, eu tenho uma Sportster, linda, preta, toda preta, um escândalo de máquina. Enquanto meu amigo falava, minha mente vagueava na minha garagem. Mente é uma coisa louca, não é mesmo? Meu pensamento estava mais interessante que o papo sério que seguia naquela sala… Por fim, servi uma cerveja ao companheiro, duas, três, a intenção era embebedar ele. Confesso que a paciência estava esgotando e a vontade de sair por ai na minha Harley ficando incontrolável.

Servi tanta cerveja para o cara que ele adormeceu no sofá. O momento foi perfeito! Sim, ali eu fui egoísta. Fui egoísta? Que nada, o deixei dormindo, corri até a garagem, isto já era mais de onze horas da noite, resolvi pegar a BR040, direção Rio de Janeiro, fui sem rumo, não queria ver gente, aquele papo me esgotou, o que eu precisava estava nas duas rodas da minha Harley, posso dizer que a minha sessão de descarrego aconteceu ali, no exato momento que peguei estrada com a minha blindada.

Percorri pouco mais de trinta quilômetros, logo após, peguei a primeira rotatória em direção a minha residencia. Eu já estava “alimentado”. Minhas forças foram renovadas. Faltando uns cinco quilômetros para chegar em casa, um “clique” veio a mente…Sabe? Quando uma “luz” acende na ideia? Pois é! Pensei, porque não interrompi meu amigo e o convidei para dar uma volta na minha Sportster? Se ele estivesse aqui, teria deixado no “caminho” boa parte de suas mágoas. Andar de moto é terapêutico! É eu fui egoísta! Só ira entender o que estou dizendo, quem tem uma Harley. O poder que essa máquina tem de sucumbir o sentimento da derrota, é algo inexplicável. Não estou falando que ter uma moto resolve os problemas, lógico que não! Mas de coração, a bichinha consegue devorar o medo, o stress, a tristeza, o corpo se fortalece e por algum motivo surreal enfrentamos revigorados os problemas da vida. Falo isso sem medo! A sensação de destreza e confiança que essa máquina provoca no corpo, libera adrenalina suficiente pra começar do zero quantas vezes forem necessárias.

Caramba! Porque não apresentei a solução ao meu amigo imediatamente?

Pois bem, cheguei em casa, Claudio roncava. Subi as escadas e fui dormir o sono dos justos.

Logo pela manhã, despertei assustado com o barulho de um copo, ou prato, algum vidro que havia caído no chão. Dirigi-me até a cozinha, Claudio estava tomando uma água e deixou o copo espatifar. Eu abri um sorriso largo para meu amigo, ele não entendeu nada. Nesse dia, nem troquei de roupa, peguei apenas meu capacete e o do carona, puxei o camarada e o arrastei até a garagem, não falei absolutamente nada, a minha reação o fez rir.

O sol começava a despontar na colina, não estava dia, nem noite, abri a garagem e percorri o mesmo caminho da noite passada, não abri a boca, tampouco meu amigo de infância.

Voltamos, Claudio saiu da moto, tirou o capacete e me deu um forte abraço dizendo obrigado. Não trocamos mais nenhuma palavra.

Passaram-se uns cinco meses, estava eu novamente de frente pra minha janela, vendo o por do sol de mais um dia que se despedia, alguém parava em frente a minha casa e propositalmente fazia roncar  o motor de uma Harley. Bicho, fitei os olhos pela janela, era uma puta de uma Breakaut, reluzente, toda cromada. Logo quis saber quem era o dono, era ela, uma loiraça, corpo escultural. Um cara na garupa, imediatamente tirou o capacete, era o filho da mãe do Claudio, eu gargalhei! Ele gritava, essa é a Cíntia, minha amiga de infância, primeira namoradinha do colegial, você se lembra Robson? Meu nome é Robson galera, pelo menos por aqui (risos). Eu engasguei, ao me lembrar da Cíntia. Cíntia era uma menina gótica, toda louca, confesso que na época, jurava que meu amigo estava surtado, ao namorar uma doidinha como ela.

Claudio gritou, valeu mano! Eu entendi o recado dado a cinco meses atrás! Cheguei em casa naquele dia, peguei o telefone e liguei pra Cíntia. Estamos juntos desde então.

Eu, eu, eu mesmo, Robson? Eu além de embasbacado,fiquei branco, igual cera, simplesmente levantei a mão, sinalizei um tchau e gritei, vai na fé irmão.

Claudio e Cíntia colocaram o capacete e seguiram viagem na belezoca da Breakaut.

Naquele dia, assentei no sofá, olhando para a parede pensei… Eu continuo solteiro.

Dois segundos depois, fui chorar minhas magoas na estrada da vida…Passou! Tudo passou.

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