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Avaliação – Peugeot RCZ 1.6 THP (aut) 2015

Fotos: Marcus Lauria

Todos os fatos a seguir ocorreram em menos de 500 metros: primeiro um motoboy passa, entorta o pescoço e quase arranca uma série de retrovisores à sua frente; em seguida um moleque andando com a mãe aponta para o carro e quase dá de cara no poste; por fim, duas meninas com uniforme escolar dizem ao mesmo tempo uma pra outra “é meu namorado”. De quem é a culpa? Do Peugeot RCZ.

O coupé da Peugeot foi lançado por aqui no final de 2011, e passou recentemente por essa reestilização, que deixou sua frente menos parecida com a do 308, e adicionou LEDs aos parachoques. O restante do visual não foi modificado, e isso é uma boa notícia, pois o carro atrai olhares por onde passa, e definitivamente não é recomendado para pessoas introvertidas ou para quem simplesmente quer ser mais um na multidão.

Entrar no carro é uma tarefa complicada para quem tem grande estatura, eu por exemplo quase fui a nocaute após o choque violento entre minha têmpora e o arco do teto, e isso ocorreu por duas vezes, até meu cérebro assimilar os movimentos que eu devia fazer para entrar no esportivo. Do lado de dentro, os bancos esportivos em couro abraçam bem o corpo, e não gostam de quem está com a academia trancada faz 6 meses.

O acabamento interno é primoroso, faz jus ao que se vê do lado de fora, com uso de bons materiais e arremates incontestáveis. Infelizmente o visual do painel é o mesmo do 308, bem como a posição dos botões, e isso pode desagradar quem lembra do rombo de R$ 153.080 na conta bancária (caso o seu RCZ seja branco, como o “nosso”). De qualquer forma, esse mal-estar passa quando a moça no Sandero ao lado pede o seu telefone, ou quando na porta do restaurante os valets praticamente se estapeiam pela chance de manobrar o Peugeot.

Seu espaço interno é ótimo para você, bem como para levar ao lado quem realmente lhe interessa, pois como um legítimo 2+2, o banco traseiro serve apenas para seu amigo de quatro patas ou crianças bem pequenas. Em compensação, o porta-malas de 321 litros carrega todas as malas da sua companheira, além da sua mochila, e caso ela exagere nas bagagens, basta rebater o banco traseiro e obter 639 litros de capacidade.

No tocante à segurança, o esportivo é bem servido, trazendo todos os duendes eletrônicos imagináveis (ABS, controle de tração, controle de estabilidade, assistente de partida em rampa) e airbags em todos os lados. Já em tecnologia, apesar dos faróis de xenon direcionais, ficou faltando uma central multimídia de uso mais intuitivo, pois assim como nos outros modelos PSA, digitar o endereço no GPS por exemplo é uma dificuldade tremenda.

Manobrar o Peugeot é mais fácil do que parece, pois apesar de ser largo (1,84 m), há sensores de estacionamento dianteiro e traseiro, além de enormes retrovisores laterais. De qualquer forma, em vagas mais apertadas é difícil saber aonde acaba o carro, pois os sensores são bastante conservadores, e apitam no último nível de alerta faltando em torno de 10 cm para o obstáculo.

Quanto ao uso urbano, esse definitivamente não é o habitat ideal para o Peugeot RCZ. Os pneus Continental de medida 235/45 R18 sofrem em ruas esburacadas, e a suspensão duríssima pouco faz para filtrar até mesmo as menores imperfeições, como tampas de bueiro mal projetadas. Por sinal, a baixíssima altura de rodagem transforma qualquer lombada em um pesadelo, e rampas de garagem dão a certeza de uma sonora raspada da dianteira, tanto na entrada quanto na saída. Ah, não podemos esquecer da largura do modelo, que faz dele um obstáculo para o corredor de motos. O trabalho do casal motor/câmbio está de nota 10 para o anda-e-para das cidades, mas cobra o preço no consumo: 6 km/l em média.

Já em uso rodoviário, o RCZ é uma delícia, desde que a estrada tenha boas condições. A suspensão firme garante estabilidade primorosa, a direção é bem comunicativa, e o motor ronrona suave em sexta marcha, com torque suficiente para qualquer retomada em pouco tempo. O condutor do RCZ desejaria que qualquer viagem de 500 km tivesse o dobro de distância, e mesmo assim seria pouco. Quer outro detalhe interessante? Andando suave a 110 km/h o RCZ roda até 15 km com um litro de gasolina.

Mas o RCZ é um coupé, com visual esportivo e motor turbinado. Será que ele se comporta como tal? Eu diria que a resposta mais adequada é: em termos. A dinâmica, por exemplo, é irrepreensível. A suspensão, apesar de contar com barra de torção na traseira, não deixa a carroceria rolar e copia o asfalto de forma deliciosa, enquanto nas curvas mais selvagens a tendência do RCZ é sempre neutra. O modelo traz ainda um aerofólio ativo, que inclina-se para cima a 19 graus a partir de 80 km/h e tem como estágio máximo uma inclinação de 34 graus a partir de 155 km/h, que ajuda a colocar mais carga sobre o eixo traseiro, contribuindo para a neutralidade da dinâmica do carro. Freios e direção também são dignos de um esportivo.

Porém, o motor Prince THP 1.6 16V turbo, com 165 cv @ 6.250 rpm e 24,5 kgfm @ 1.400 rpm, apesar de entregar um pouco de emoção ao modelo de 1.297 kg, não é bem aquilo que se espera de um carro com tal visual. Parte da culpa fica com o câmbio automático de seis velocidades, que é irrepreensível em uso civilizado, mas fica devendo em uso selvagem, especialmente com o modo “sport” acionado ou com em trocas manuais. Aliás, aonde estão as borboletas para troca de marcha? Cambiar na alavanca descendo a lenha na serra até funciona, mas falta tempero, da mesma forma que falta tempero no volante grande demais.

Justiça seja feita, com o RCZ você irá andar mais rápido do que grande parte dos carros (em um track day por exemplo), especialmente nas curvas, isso é fato. O grande torque em baixa do motor faz com que as acelerações e retomadas sejam convincentes, mas sempre fica a impressão de faltar um pouco de pimenta. Desde que você não tente se engraçar com um Mini Cooper, como eu fiz, o RCZ será mais do que suficiente para a sua diversão. Talvez a Peugeot devesse reconsiderar a oferta do motor THP com 200 cv por aqui, especialmente pelo fato do preço já ter subido praticamente R$ 20.000 desde o lançamento.

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