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Avaliação – Fiat Doblò Adventure 1.8 Flex 2015

Fotos: Marcus Lauria

Este é o Fiat Doblò Adventure, carro que em um passado não muito distante, disputava vendas com Citroën Berlingo e Renault Kangoo, e hoje reina sozinho no esquecido segmento das multivans. Seu visual não é dos mais apaixonantes, mas o facelift recebido em 2010 deixou o carro atual o suficiente para não incomodar os olhos mais sensíveis hoje em dia. Com espaço interno invejável, o utilitário de seis lugares já ganhou uma nova geração na Europa, mas por aqui promete continuar igual por mais algum tempo.

O detalhe que salta aos olhos no Doblò Adventure é o seu porte, especialmente nesta versão aventureira, que conta com pneus de uso misto, estribo e apliques plásticos na carroceria. Seu estepe pendurado na traseira chega a ser ameaçador, e cria um obstáculo a mais para se alcançar o porta-malas, que divide espaço com um banco para um pequeno sexto passageiro (ou para a sua sogra). Já na fileira do meio, há espaço de sobra, mesmo para três jogadores de basquete, tanto pelo espaço para as pernas quanto pelo teto elevado. Para entrar no carro, as práticas portas corrediças ajudam bastante.

Assumi o banco do motorista e fui surpreendido pelo Doblò, negativamente. O banco é elevado e somando-se a altura de rodagem do carro, a sensação é a mesma de dirigir um pequeno caminhão. Isso não seria um problema se houvesse uma regulagem de altura do assento, mas não há. A coluna de direção, pelo menos, tem tal regulagem, mas vai do ruim ao péssimo, e o volante fica um pouco na horizontal. Ademais, o trilho do banco não permite que as pernas fiquem folgadas, resultando em uma ergonomia desajeitada. O único ponto positivo vai para a alavanca de câmbio no painel, bem próxima ao volante, que chega a ser viciante de tão prática.

Visibilidade não é problema, os retrovisores são enormes e os vidros são tão grandes que os ocupantes se sentem em um aquário. Não fosse o estepe na traseira, dar ré seria mais fácil, mas o sensor de estacionamento ajuda bastante na tarefa de não amassar o carro alheio em balizas. A direção hidráulica é pesada, mas o diâmetro de giro de 11,2 m é suficiente para tirar de vagas apertadas o Doblò e seus 4,48 m (comprimento) por 1,76 m (largura). Apenas sua altura de 1,96 m requer cuidado em algumas vagas subterrâneas.

É fácil colocar o utilitário em movimento, pois seu motor 1.8 16V E.TorQ mostra valentia suficiente para puxar o carro na cidade. Não desanime com o torque máximo de 18,9 kgfm a longínquos 4.500 rpm (18,4 kgfm com gasolina), pois o câmbio é bem curto e o giro sobe com facilidade. Na prática o Doblò Adventure anda bem na selva urbana, e fica fácil se deslocar no trânsito com uma posição de dirigir tão alta. Para lidar com asfalto crocante e lombadas criminosas, a solução usada pelo carro é a suspensão elevada e robusta casada a parrudos pneus 205/70 R15.

Confesso que tive certo receio de jogar o Doblò Adventure “de jeito” na estrada, afinal um carro com proporção altura x largura tão discrepante a favor da primeira poderia resultar em duas coisas: estabilidade deficiente e sofrimento diante de ventos laterais. Mas me enganei por completo. O carro desdenha das leis da física, pois encara muito bem as curvas, mesmo sem salvaguardas eletrônicas, mantendo-se na trajetória mesmo com a carroceria rolando pouco além do ponto em que um ateu clama por ajuda divina. Ventos laterais não perturbam o Doblò, o carro segue firme e estável mesmo quando o velocímetro indica números divergentes do que informa aquela placa branca redonda com borda vermelha.

Novamente o motor 1.8 16V mostra seu valor, rendendo 130/132 cv @ 5.250 rpm (gasolina/etanol), que garantem desempenho satisfatório ao utilitário de 1.463 kg. Para retomadas e ultrapassagens, trabalhar o câmbio de 5 velocidades é um prazer, graças aos engates de qualidade. Caso algo dê errado, suba nos freios e veja o conjunto formado por discos ventilados (dianteira) e tambor (traseira) segurando a massa do carro com louvor, mas não se assuste com o mergulho da carroceria, é normal, pois por melhor que seja o ajuste da suspensão, a Física é implacável. Para aproveitar melhor o carro na estrada, siga em uma tranquila velocidade de cruzeiro, curtindo o bom isolamento acústico e o conforto de rodagem.

Apesar de não contar com tração integral, o carro faz jus ao seu visual aventureiro encarando algumas trilhas mais leves com boa valentia. O sistema Locker e os pneus de uso misto facilitam a vida quando você precisa evitar passar a noite no sítio daquele cunhado chato, encarando a estradinha de terra mesmo com as nuvens de chuva se formando no céu. Ainda que sua esposa diga que aquela ameaçadora poça enlameada vai atolar seu carro, pode confiar no Doblò Adventure que ele encara, ou pelo menos tenta.

Mas é necessário falar do que incomoda, e o custo do Doblò incomoda bastante. A começar pelo consumo, aonde as médias de 4,3 km/l na cidade e 7,9 km/l na estrada (Etanol) são desanimadoras. Com Gasolina ele faz 6,1 km/l na cidade e 9,1 km/l na estrada. É um apetite por combustível muito elevado, e isso se deve à equação peso elevado + aerodinâmica de tijolo + pneus de uso misto + câmbio curto + motor de concepção antiga. Não há milagre.

E o consumo elevado poderia ser apenas um detalhe, se o Doblò Adventure não custasse a partir de R$ 76.550. No caso do carro testado, o valor chega a R$ 83.460, e é um reflexo do que acontece quando não há concorrência. Com um preço tão alto, os detalhes negativos do carro pesam mais na balança, e isso inclui o projeto antiquado, a posição de dirigir ruim e, novamente, o apetite voraz por combustível. Antes de comprar um Doblò Adventure, pergunte a si mesmo: eu preciso de um carro com visual aventureiro descolado que leva seis passageiros e (muita) bagagem? Se o sexto passageiro for dispensável, vá de Spin Activ ou Idea/Palio Adventure. Caso o contrário, receba o Doblò de braços abertos em sua família.

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