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Vamos a La Plaia… mesmo???

Fotos: Divulgação

Todo ano é a mesma coisa: basta chegar a época das festas natalinas e 90% da população brasileira é acometida por uma necessidade desenfreada e incontrolável de ir para a praia. Não interessa muito qual ou aonde, o importante é ir para a praia. Dinheiro não é problema, já que quase ninguém tem, e vai ficar devendo os tubos para acabar com a abstinência de engolir água salgada. Quem tem dinheiro faz a mesma coisa, e fica devendo mais. Porém, o importante é estar na praia, ensurdecer com as queimas de fogos, pular 7 ondas, comer lentilha e soltar oferendas para Iemanjá na virada do ano!

A “alegria” da viagem começa na… viagem! Para ilustrar a matéria, vamos ver como é a epopeia de sair de Curitiba, Paraná, se chegar a Florianópolis, Santa Catarina, e suas belas praias (mas… qual a diferença com as outras praias? Não são todas ilhas arenosas cercadas de gente por todos os lados?), destino entre os mais procurados pelos areia-dependentes brasileiros, argentinos, uruguaios…

Para acessar a BR-101, o viajante tem duas alternativas: atravessar a divisão entre Curitiba e São José dos Pinhais ou utilizar o anel externo. Ambas as alternativas serão desgastantes. Não se esqueça, todo mundo aparentemente teve a mesmíssima ideia, no mesmíssimo momento, e o trânsito urbano estará um caos. E começa a jornada para percorrer os 302 quilômetros que separam as duas capitais sulistas, asfalto de boa qualidade, sinalização idem e 8 milhões de radares e câmaras dispostos estrategicamente para aumentar a arrecadação dos dois estados. Para sua preparação psicológica, sugiro dividir mentalmente a viagem em duas etapas distintas: antes e depois de Itajaí.

De Curitiba a Itajaí, cidade portuária distante 216 quilômetros da capital paranaense, as coisas não parecem assim tão catastróficas, apenas nas praças de pedágios tudo fica positivamente embolado. Nas saídas para Joinville, Barra Velha e Penha o caldo costuma engrossar bastante, e o trecho que compreende as incontáveis saídas para Blumenau também fornece gratuitamente boas doses de dor de cabeça, mas é logo ali na frente que o inferno na Terra se inicia.

Você chega no primeiro acesso para Itajaí… e dorme. Ou, nos tempos atuais, todos os ocupantes do veículo sacam seus celulares e mergulham em seus mundos particulares, alienando-se do trânsito e de seus companheiros. O fato é que entra governo, sai governo e Santa Catarina, um dos estados mais ricos da Nação, permanece na idade das trevas quando o assunto é mobilidade. Aparentemente todos os responsáveis pelo trânsito em cidades e estradas catarinenses são acometidos de uma deficiência mental que os impede de enxergar o óbvio e tomar medidas práticas e funcionais. Assim, nada anda nunca para lado algum.

Tanto faz você estar a bordo de um Aston Martin V12 com 600 HP ou de um Chery QQ 1.0 e seus 75 HP de potência. Sua velocidade máxima para conseguir transpor os poucos quilômetros até a última saída para Itajaí será a mesma: Zero! E a turma do Chery vai poder rir bastante de você, que torrou mais de R$400.000,00 num carrão para ficar estacionado ao lado deles…

Muito bem, sabe-se lá como, você conseguiu superar este trecho e agora sim, vamos acelerar de novo né? Não, não é… a distância que te separa de Balneário Camboriú, a mega-ultra-super-master badalada praia dos ricos, pseudo-ricos e pobres metidos a ricos é de míseros 12,6 quilômetros. Se já estava tudo parado antes, agora é que vai parar de vez! E dá-lhe vendedores de tudo que é coisa batendo no seu vidro e pendurando tranqueiras nos retrovisores. Para fugir dessa realidade, entra em cena novamente o celular e o alienante whatsapp.

Horas depois – muitas, diga-se – e eis você, novamente, andando – sim, nessa velocidade – em direção a já aparentemente inexistente Florianópolis. Itapema ficou para trás, Maia Praia idem, ufa, ali esta a entrada para Biguaçú e… adeus alegria. Serão os 25 quilômetros mais lentos de sua vida. Até que, exasperado, cansado, a bunda quadrada de ficar sentado, você encontra – a sinalização, pelo menos, é de primeiro mundo – o caminho para o acesso a ponte que separa o continente da ilha… que é para onde você vai, afinal, está torrando uma montanha de dinheiro em hospedagem, alimentação e combustível, certo?

Esqueça as comemorações. Novamente entra em cena a deficiência mental dos engenheiros de trânsito catarinenses, e a vontade que dá é deixar a porcaria do carro ali mesmo e seguir a pé. Muito bem… você, herói da resistência, conseguiu vencer todos os obstáculos e pronto, agora sim é só acelerar e, logo-logo, estar finalmente pulando alegremente as ondas das belas praias catarinenses! Não tão rápido. Se seu destino é o norte da ilha, azar seu. As estradas são estreitas, entupidas de carros e o idioma oficial é o espanhol. Sim, é para aquelas bandas que a maior concentração de Hermanos fora da Argentina se dirige. Para quem gosta de turista folgado, é um prato cheio. Se o seu destino for o sul da ilha, a única diferença é que tem menos argentinos, porque os acessos… ninguém merece.

De qualquer forma, após uma torturante viagem interminável, você e sua turma estão prontos para curtir todas as maravilhas que as belas praias podem oferecer, como garimpar um lugarzinho de 30cm quadrados onde você caiba na areia ou na água, ir para a praia com chuva mesmo já que está pagando para estar por lá, subir e descer uma centenas de trilhas e roteiros recheados de mosquitos, sofrer com a falta de água doce para banho, pagar 20 vezes o valor de qualquer coisa fora da temporada, assistir as queimas de fogos, e se preparar para a viagem de volta, que será idêntica a de ida só que com você muito mais endividado, tudo devidamente registrado, fotografado, filmado e transmitido ao vivo pelo seu inseparável celular para “matar de inveja os coitados”, ficaram em Curitiba mesmo, tomando cerveja bem gelada por R$ 2,00 e queimando aquela picanha de R$ 50,00 a peça com os amigos!

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